Por que você não deixa sua barba crescer?

Eu moro em São Paulo tem mais ou menos 3 anos. Nos primeiros quase 9 meses eu estava dentro de um namoro monogâmico. Quando fiquei solteiro, conheci várias pessoas novas e fui pra muitas baladas. T-O-D-A-S as pessoas que conheci nessas circunstâncias me perguntaram no primeiro encontro: “por que você não deixa sua barba crescer?

E no começo eu respondia com toda a paciência do mundo: não acho que fico bem de barba, me sinto estranho, não gosto da textura no meu próprio rosto, minha pele não se adapta bem e fica sempre avermelhada e com muita, muita coceira. Mas nada contra barba e homens de barba, etc.

Mas comecei a perder a paciência. Por que estou justificando minhas escolhas estéticas sobre o meu corpo para uma pessoa que acabei de conhecer?

Pior: por que uma pessoa que acabou de me conhecer acha que tem o direito de me falar que discorda do meu rosto? Sim, pois é isso que está acontecendo. Quem acha que tem direito de chegar na cara de alguém e dar uma opinião pessoal (não requisitada) sobre como ela escolheu levar a vida estética dela? Você não chega para uma pessoa no primeiro encontro e pergunta: por que você não faz outro corte de cabelo? Por que você não perde essa barriguinha? Por que você não apara sua sobrancelha? Por que você não usa aparelho nos dentes?

Enfim, poxa. Perguntar pra alguém de rosto liso o motivo dele não fazer a barba é tão ofensivo quanto chegar pra um barbudo e perguntar o motivo de ele não raspar, perguntar se a barba não o incomoda, se ele não se sente sujo, por quê ele deixou a barba crescer tanto, etc. As pessoas precisam entender que perguntar o motivo de uma pessoa não deixar a barba crescer é uma crítica e pode ser ofensivo. Não façam isso, por favor.

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Gente, qual a necessidade disso?

Mas não tem jeito: eu olho ao redor e todos os gays que conheço curtem barba. Querem ter uma e querem que o cara que eles pegam também tenha. E tudo bem isso! Quem não ama um homem de barba, não é mesmo, minha gente? Mas até que ponto essa escolha estética foi legítima? Ou será que foi imposta?

Não tenho uma resposta. Mas sabemos que o padrão estético masculino é muito limitado; os pacotes midiáticos te vendem que o bom é ser branco, forte e sem pêlos. Então lá atrás, no começo, a luta sempre foi por inclusão. “Você não precisa ser forte e liso, você pode ser como você quiser! Inclusive barbudo! E vamos te amar assim e você vai se amar assim!” E todo mundo se abraçou em praça pública enxugando suas lágrimas nas suas camisas de flanela xadrez.

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Eu no Tinder

Mas o tempo foi passando, e uma coisa é quebrar um ícone estético, outra coisa bem diferente é impôr uma outra estética no lugar. E sinto que foi isso que aconteceu, pelo menos no meio gay. Agora, ter barba é praticamente a única opção aceitável, parece. As pessoas me perguntarem por quê não deixo a barba crescer, no primeiro encontro, prova isso. Os amigos que tomam pílulas para estimular crescimento de pêlos também (sabe-se lá quais são os efeitos colaterais desses medicamentos e quem está receitando isso pra eles).

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Um conhecido postou no Instagram foto da barba recém-feita e recebeu esses comentários. Galera, não é legal xingar foto dos outros, ok?

Ver esse movimento me dá um certo nó na garganta, porque ele é visível e pode ser invasivo no caso dos remédios, mas acho que por baixo tem um monte de coisas invisíveis acontecendo com as pessoas, que tateiam auto-estima, pertencimento, tribos, grupos, auto-aceitação e por aí vai.

(E acho hilário que nas minhas redes sociais tem um cara que na mesma semana postou uma notícia sobre as vendas de lâminas terem caído devido à moda da barba, comemorando e se achando super anarquista e contra o capitalismo, mas aí no dia seguinte postou comemorando que uma marca gringa ia trazer pro Brasil sua linha de cuidados para barba, ou seja…)

A coisa mais frágil do mundo é a masculinidade

Todos nós sabemos que há preconceito dentro da própria comunidade gay contra os homens que são magros demais, ou gordos demais ou que são afeminados demais, por exemplo. Mas se você for barbudo, branco, forte e rico, aí tudo bem, pode ser gay no escritório, na novela, no filme, na série. Tudo uma herança de uma mentalidade machista, de superioridade do macho alfa, de que gay tem que parecer… hetero.

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Enquete que lancei no meu Twitter. Segue lá: @gabrielkdt

Pois é. Posso estar errado (e, no fundo, quero estar), mas sinto que tudo isso é, entre outras coisas, também uma herança do conceito de masculinidade definido por homens heteros, esses que nasceram numa situação privilegiada dentro de uma cultura machista e rejeitam qualquer coisa que pareça “de mulher” ou “de criança” – inclusive esteticamente.

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Cotonetes para homens, sabonetes em formato de granada e um tutorial de como arrumar uma cama masculina

E aí fico pensando a mesma coisa que penso sobre gays que curtem futebol ou que são religiosos: vale à pena? Chegamos a alguma lugar respeitando uma cultura que nos oprime? Ganhamos respeito nos apropriando ou nos afastando dessas culturas? Eu realmente não sei.

Mas sei que barba ainda é um grande símbolo disso, de diferenciação entre homem-mulher, e por isso acho que, em algum nível, a apropriação dela no mundo gay é mais do que apenas estético e diz respeito a imposição de valores. Diz respeito a algum tipo de validação da masculinidade que as outras pessoas insistem em não enxergar em você pelo fato de você ser homossexual, é tipo um “sou gay, mas sou homem, pois tenho barba”. Tudo isso, claro, não acontece de forma consciente.

Mas não sei bem se é isso e, obviamente, se for, não é o caso de todos os gays barbados (escrever longos textos sem nenhuma conclusão é minha especialidade), mas acho interessante colocar a discussão na mesa pois uma parte importante do movimento gay é a liberdade, aquela que te permite ser quem você quiser ser. Então sempre vale se perguntar e refletir: a pessoa que você é ou que está se tornando é fruto dos seus desejos ou do desejo dos outros? As suas vontades e realizações estão vindo de dentro de você ou do ambiente em que você está inserido? Ou do ambiente que você quer estar inserido?

Resumindo: tenha barba e curta barba, mas não seja otário.

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8 comentários em “Por que você não deixa sua barba crescer?

  1. (Mas também dá pra enxergar tudo isso como um contra-movimento: se apropriar de “coisas hetero” pode ajudar a desmanchar essa linha imaginária que tanto queremos e nos deixar mais perto de um mundo com menos rótulos. Mas ainda assim dá pra problematizar que o mundo é tão machista e opressor de minorias que os gays precisam se apropriar de algo dos homens heteros para se empoderarem. Mas esse texto já estava longo demais)

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  2. Tenho barba e já me fiz questionamentos similares a esses levantados no texto. Concordo plenamente com ele.
    E talvez o importante mesmo é não otário com os outros.
    Quem defende ter barba como produto de uma escolha pessoal meio que se contradiz ao ficar cagando regra sobre as escolhas alheias não tê-la.

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  3. Digamos que eu esteja esperando a fase da barba passar!
    Tenho 29 anos e não tenho barba, e vejo isso como um certo fator essencial para que alguém venha me conhecer!
    Se vou para a balada e não tiver barba, muitos não me olham…(pode ser impressão minha), mas não, agora todo mundo quer um namorado com barba, quer um amigo com barba e não acho ruim, eu mesmo adoro barba (isso não quer dizer que não gosto dos sem barba), mas não precisa ser algo estipulado pela sociedade gay, como se fosse uma moda.
    Muitas vezes me sinto excluído de uma parcela da sociedade, em que: Se eu não tenho barba, eu não sirvo!
    Prova disso são os apps, quantas pessoas com frases: “Curto barbudos, somente para homens com barba”.

    É amigo, algumas coisas estão foram do seu padrão e ninguém percebeu!

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  4. […] As últimas quebras de ideal de beleza masculina acabaram distorcidas, especialmente no meio gay. Se antes o padrão era o cara ser fortão e depiladinho, conseguimos mudar isso e destacar e dar valor ao homem peludo e barbudo e gordinho, por exemplo. Mas tenho vários conhecidos que começaram a tomar medicamentos pra nascerem pêlos em seus rostos e peitos, o que acho uma medida invasiva e não muito saudável em nome de beleza física. Poxa, o que queríamos desde o começo era incluir, não excluir! Mas foi o que aconteceu, criou-se um outro padrão de beleza, tão opressor quanto aquele contra o qual estávamos lutando contra lá atrás. Todos os dias alguém vira pra mim e pergunta: “porque você não deixa sua barba crescer?“ […]

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  5. Eu uso barba desde antes da modinha. Tenho algumas manchas no rosto na área da barba (vitiligo) e comecei a deixar a barba para esconder e acabei gostando. Uso barba a mais ou menos 12 anos. Hoje me pego pensando em parar de usar porque a modinha tá chata… Mas cada qual com seu cada qual…

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