O pop tem razão: “Paradise (Not For Me)”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?” Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem algum sentido pra mim.

Eu tenho uma teoria sobre Madonna: o sucesso, a fama, a fortuna e o marketing impedem que muita gente veja a poesia de seus trabalhos. O lado performer dela acaba chamando muito mais atenção que o inspiracional – que vem em ondas ao longo da carreira, mas está sempre lá.

E essa é uma música que exemplifica bem isso. Lançada lá no álbum “Music”, em 2000, nem a mim chamava muita atenção. Eu gostava dos malabarismos vocais, dos barulinhos eletrônicos, do trecho em francês, mas não conseguia ver direito sobre o que ela falava. Foi apenas revendo a apresentação ao vivo na turnê de 2005 que minha ficha finalmente caiu e enxerguei várias camadas de significados ali. Talvez tenha a ver com o fato que eu estava sob influência de algumas substâncias, confesso.

Pra mim, é uma canção sobre a relação que temos com nossas religiões durante nossa infância, geralmente impostas pelos nossos pais e familiares. “Eu não me lembro quando eu era jovem, eu não consigo explicar se era errado. Minha vida continuou, mas não do mesmo jeito. Nos seus olhos, meu rosto permanece”, canta ela no começo. Acho que diz respeito a esse vestígio que uma crença deixa dentro de você, de você não saber se acredita em algo por realmente acreditar ou por ter sido ensinado que isso é o correto. E talvez o olhar que permaneça tenha a ver com a mãe de Madonna, que era uma católica fervorosa (a proibia de usar jeans, por exemplo) e que veio a falecer quando a cantora tinha ainda 6 anos.

E o refrão tem a ver com a descoberta que esse sistema de crença não funciona pra você. “Eu estive tão alta, eu estive tão baixa. No alto dos céus e no chão. Eu estava tão cega, eu não conseguia enxergar: o seu paraíso não é para mim”. Depois de passar por altos e baixos, ficou claro que todos aqueles conceitos são excludentes e que as religiões, na verdade, não te aceitam como você é e que elas, de verdade, não te salvaram nos momentos que você estava caído.

Em seguida, vem o trecho em francês: “Ao meu redor eu não vejo quem são os anjos. Certamente não sou eu. Mais uma vez estou quebrada. Mais uma vez eu não acredito”. Quem são essas pessoas? Fiéis da mesma igreja? Familiares? E qual o motivo do francês? Por ser uma língua tradicionalmente ensinada em colégios dos Estados Unidos? Não sei bem.

E a linha final: “Há uma luz acima da minha cabeça. Em seus olhos, minha face permanece”. Aqui acho que é uma referência àquele Salmos que diz que “Tua palavra é lâmpada para os meus pés e Luz para o meu caminho”, especialmente pois “Luz” é uma das maiores metáforas dentro do estudo da Cabala (vertente mística do judaísmo que a cantora estuda), representando tudo de bom que emana de Deus.

Li também que a canção é uma metáfora para os altos e baixos da fama, mas acho que há conexão até entre isso e religião: Madonna já disse em várias oportunidades que estudar Cabala fez com que ela compreendesse melhor seu lugar no mundo, colocasse perspectiva em sua fama e em suas obrigações como ser humano. “Eu tenho menos altos e baixos hoje”, diz ela no documentário “I’m Going to Tell You A Secret” quando aborda o assunto.

Tudo isso fez sentido quando vi ela apresentando a canção tocando violão e com Yitzhak Sinwani cantando junto. Ele também estuda Cabala e é quem entoa os cantos hebraicos de uma outra música de Madonna que ganhou seu nome, “Isaac” – apesar de que o trecho usado nessa última é da canção “Im Nin’Alu”, da israelense Ofra Haza.

600full-madonnaNesse show, “Paradise (Not For Me)” ganha uma versão calma e Madonna divide o foco com o cantor. Aliás, em certos momentos ela o destaca, vemos pela primeira vez Madonna tocar violão em seu show para que outra pessoa cante. Acho que foi aqui que minha ficha caiu: da canção ser uma metáfora para uma religiosidade imprecisa na infância que deu lugar a algo mais profundo na vida adulta. Yitzhak representa a calmaria, a nova fase, a Cabala, tudo que faz da nova Madonna outra pessoa. Agora ela está confortável a ponto de colocar à frente de si mesma tudo em que ela acredita – ao contrário do que faz com o catolicismo desde os anos 1980, que é confrontar e não aceitar.

E pensando nisso, lembrei que essa música era um interlude na turnê de 2001, com um vídeo inspirado em “Memórias de Uma Gueixa” e achei que a intenção ali era a mesma. Pouca coisa simbolizaria melhor algo que é tradicional e repressor. Daí a relação com a religião também.

Pirei demais?

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