O gay está nu

O projeto Chicos (também assunto desse meu post aqui), que é de dois amigos meus de Belo Horizonte, Rodrigo Ladeira e Fábio Lamounier, mostra nus masculinos de todo tipo. Fui convidado para posar e rapidamente aceitei. Mas do dia do convite ao dia dos cliques pensei muito à respeito. Conversei com um amigo que disse que eu devia posar, com um que tinha posado antes e com um cujo namorado tinha posado para outro projeto. Com todos, debati o motivo da nudez causar tanto desconforto (na gente mesmo e nos outros) e o jogo de ego que inevitavelmente entra em cena. Todo mundo sabe que eu sou o Sr. Problematizador.

O projeto já é famoso na internet, mas é a primeira fase de um ou dois livros impressos e de um documentário em vídeo. Isso já me fez olhar pra toda a experiência de uma outra maneira – é mais que apenas corpos nus, é diálogo e compartilhamento de histórias. Mas eu topei, primeiro, pois tinha vontade. Simples assim. Eu sinto hoje um orgulho do meu corpo (apesar dos pesares) e da minha história (também apesar dos pesares) que nunca senti antes.

Sair do armário não é fácil, especialmente para você mesmo. Do “talvez eu não seja hetero” até o “com certeza sou gay” são várias ideias e conceitos e definições que você sente ou inventa para você mesmo e para o mundo. E se eu puder compartilhar um pouco de tudo isso com pessoas que sentiram o mesmo no passado (ou jovens que estão sentindo o mesmo agora), ótimo. Sinto, inclusive, que se esse blog aqui tem algum propósito para quem lê, é o de debater sobre isso, o de problematizar sobre aquilo que parece determinado ou irreversível e inquestionável, o de incomodar o que está acomodado na gente.

Anos atrás, eu estava saindo com um fotógrafo, ele quis me fotografar nu e eu não deixei. Me achava magro demais e tinha tatuagens inacabadas pelo corpo. Agora vejo como foi uma bobagem isso. Talvez eu nunca vá estar completamente feliz com minha figura, mas eu não devia deixar isso me impedir de estar satisfeito com ela – e desde então aprendi a me aceitar mais. E isso é muito libertador. Tanto que, no dia desse ensaio de agora, eu estava super nervoso ao ir tirando a roupa aos poucos, mas continuei pelado na cama quando a sessão terminou, vendo os cliques na telinha da câmera, já super confortável. Ficar pelado para uma pessoa que você nunca viu pelada de volta e sem pretenções ou contextos sexuais é uma sensação muito complicada de descrever. Muito diferente. E até mesmo isso foi interessante: se vivo defendendo a naturalização do nu, eu devia começar a aplicar isso um pouco mais na minha vida. Quis mostrar meu corpo não por ele ser perfeito, mas por ter feito as pazes com as imperfeições dele. Entre várias coisas, o projeto tenta mostrar a pluralidade do corpo masculino. Também existem padrões de beleza para homens e é tão complicado quebrá-los quanto os femininos – apesar de estarem aportados em características diferentes e, claro, também serem culturais.

Outra coisa que me ajudou bastante foram os caras que namorei e fiquei nessa vida, sabia? É perigoso isso, de colocar na mão dos outros uma auto-aceitação, mas eles me ajudaram: quando eu era adolescente eu me achava feio demais, pensava que ninguém nunca ia gostar de mim. Então essas experiências me fizeram ver que era bobagem o meu pensamento, eu ia achar alguém que ia gostar de mim sim, do jeito que eu fosse, branquelo ou tatuado, magrelo ou malhado. E achei – e tenho achado. Com certeza não tenho e nem terei o “corpo ideal dos filmes e revistas”, mas as pessoas não têm tesão só nesse tipo de corpo – ainda bem.

As últimas quebras de ideal de beleza masculina acabaram distorcidas, especialmente no meio gay. Se antes o padrão era o cara ser fortão e depiladinho, conseguimos mudar isso e destacar e dar valor ao homem peludo e barbudo e gordinho, por exemplo. Mas tenho vários conhecidos que começaram a tomar medicamentos pra nascerem pêlos em seus rostos e peitos, o que acho uma medida invasiva e não muito saudável em nome de beleza física. Poxa, o que queríamos desde o começo era incluir, não excluir! Mas foi o que aconteceu, criou-se um outro padrão de beleza, tão opressor quanto aquele contra o qual estávamos lutando contra lá atrás. Todos os dias alguém vira pra mim e pergunta: “porque você não deixa sua barba crescer?

E outra: que delícia ter um registro tão completo de si mesmo para olhar no futuro, não é? O tempo vai passar, meu corpo vai mudar, e é legal lembrar com mais detalhes como ele um dia foi. Já disse antes (nesse texto aqui) que envelhecer é o grande elefante branco da comunidade gay. Nada contra quem fica por aí brigando sobre qual seriado de TV ou cantora pop é melhor, gastando horas do dia decorando coreografias de clipes. Nada contra, mesmo. Eu participo de tudo isso em algum nível também. Mas espero sinceramente que essas mesmas pessoas estejam também buscando algo a mais da vida: que queiram se conhecer mais, se desenvolver mais, entender melhor de onde vem suas vontades e desejos e conceitos. Que reflitam um pouquinho sobre a vida, a morte. Conseguir ser feliz consciente da velhice, da doença, da morte e da solidão é o grande desafio da humanidade – gays não estão fora disso. Sair do armário para si e para o mundo pode ser muito doloroso, mas não quer dizer que a partir disso é tudo festa. Sei lá.

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Sobre o vídeo

Na conversa com Rodrigo, falamos sobre muitas coisas: primeiro amor, primeiro sexo, sair do armário para a família. Mas a primeira pergunta foi a mais complicada: “o que é ser gay para você?”

Ao mesmo tempo que não é nada, ao mesmo tempo que encaro ser gay como apenas uma das minhas características, sinto que ela define toda a minha vida. Não é só minha sexualidade, é meu lifestyle e é a minha luta. E aí a conversa foi para a existência da tal “cultura gay”, que eu acho que não devia existir – ela é elitista demais, ao meu ver. Ser gay é “só uma das” característica da pessoa, ela não necessariamente compartilha interesses e características com todo o grupo além dessa. É difícil rotular a cultura gay: qualquer item que você usar (um certo comportamento, uma certa roupa, um ou uma representante) vai ter alguém pra gritar: “ei, eu discordo!”

O que há por trás dessa galerinha que se acha superior por não parecer gay, os tais “discretos”, é essa imagem irreal de que “os gays” são iguais. Mas o que chega da comunidade gay para fora dela não representa todos e nunca representará. Os pacotes midiáticos (livros, revistas, séries, programas de TV) vendem estilos de vida. E nossa sociedade é muito machista, os pacotes midiáticos mainstream vendem sempre a ideia que todo gay odeia futebol, é afeminado, usa rosa e couro, curte boate e Rihanna – vende-se a ideia de que pra ser gay você é, automaticamente, menos homem. Logo, o cara cresce achando que se ele gosta de futebol ou não ouve Rihanna ele é “menos gay”. E essa conclusão é, certamente, uma das que mais causa atraso nos nossos avanços de direitos civis. O gay que dá a cara a tapa é o que causa as mudanças: somos diferentes, mas estamos no mesmo grupo, pessoal. Precisamos ter consciência que, de um jeito ou de outro, um sempre representa todos.

Pensando nisso, lembrei desse caso que conto no vídeo, dos HSH, homens que fazem sexo com homens. O termo foi criado nos anos 90 para que as medidas de contenção da AIDS e outras DSTs não ficassem restritas a grupos por orientação sexual. Mas vamos lá: todos os gays são diferentes entre si, a única coisa em comum entre todos é atração por outros homens, e aí existe um grupo que faz exatamente a única coisa que é comum a todos os gays, mas não se identifica como gays! Percebem como isso é maluco? Os caras que selecionam essa opção nos formulários acreditam, de verdade, que o sexo com outros homens não os tornam gays. Tenho dúvidas: até onde isso é apenas “fluidez sexual” ou apenas preconceito de gente que acredita, mais que ninguém, nos pacotes midiáticos.

Enfim, esse texto já está muito mais longo do que era para ele ser originalmente. Quem quiser continuar no assunto, recomendo os textos abaixo:

Não sou e nem curto afeminados

O que você pode aprender com Brendan Jordan

Por que alguns gays precisam de likes e elogios demasiadamente?

Por que achamos que ser magro é bonito (Super Interessante)

Fernanda Young lista os motivos que a levaram a posar na Playboy (O Globo)

Projeto promove debate sobre aceitação gay (O Tempo)

Empresas que não gostam de gays não merecem o meu dinheiro

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5 comentários em “O gay está nu

  1. Acabei de entrar no Chicos e dou de cara com um tal de Gabriel. Fiquei olhando as primeiras fotos… olhando… e pensei “será…? Mas ele (o cara do site) não se chamava Thiago?” daí vim conferir hahaha.

    Er, ainda não li os textos e não vi o vídeo. Vim primeiro confirmar se era você mesmo haha, e vou ver o vídeo agora.

    No mais: parabéns. Não acho que se trate de um “ato de coragem”. É uma coisa tão natural, é arte. E é bonito. Então parabéns. Muito bacana ter aceitado o convite e tudo mais.

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  2. […] Chicos O projeto é uma mistura interessante de conceitos e corpos: gays comuns são fotografados nus e questionados, em vídeo, sobre a relação que têm com seus corpos, sua sexualidade e primeiras experiências. Além do site, já gerou exposições e festas, e a ideia dos criadores Rodrigo Ladeira e Fábio Lamounier é transformar todo o material coletado em um livro e um documentário. (update: posei para o projeto!) […]

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  3. Parabéns!!! Texto delicioso! Estou adorando seu blog. No caso do HSH, que você fala, eu acredito que foi mais uma estratégia usada por quem criava as campanhas HIV/Aids, para atingir o maior número possível de pessoas, ou seja, se a pessoa não se considera gay, mas faz sexo com homens, que ela também se previna e se trate. Foi justamente um início de tentativas de mostrar que não era apenas doença de gays, mas de todo o mundo. Nesse caso, não entrava a luta por direitos dos gays, mas que as pessoas se cuidassem. Acho que se encaixa, aí , muitos prostitutos que são heterossexuais, mas transam com homens por dinheiro. Não acho isso impossível. Eu sou gay, assumido desde a adolescência, mas quando jovem fui prostituto e transe com mulheres, também por dinheiro. Não pelo desejo, por dinheiro, apenas. Então, acho isso possível, sim.

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