O pop tem razão: “All The Rowboats”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?” Essa é uma questão de ‘Alta Fidelidade’, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem algum sentido pra mim.

Um dia desses eu estava ouvindo Regina Spektor e me bateu uma melancolia enorme ouvindo uma música que eu já tinha ouvido muitas vezes e que nunca tinha batido assim – talvez eu estivesse mais sensível naquele dia. Em “All The Rowboats” ela canta sobre obras de arte e me fez lembrar de uma vez que comparei com pinturas uma pessoa que eu gosto [foi nesse texto aqui].

Nota: sei que Regina Spektor compõe de forma muito livre e lírica, no sentido de ser desligada da realidade, de sentido, até mesmo de storytelling. Tudo que tirei dessa letra tem a ver com o que ela me fez sentir, não necessariamente com o que a artista quis dizer, ok? Combinado, então vamos prosseguir.

Ela começa observando barcos a remo em uma pintura. Eles sempre parecem estar querendo remar para longe, ela diz. E o capitão, preocupado, se contorce olhando para as ondas.

Depois, ela interrompe essa observação e nos situa: aparentemente ela está em um museu, cercada de gente que observa a mesma pintura e outras obras. Canta que as pessoas ao redor estão sussurrando em francês, alemão, holandês, italiano e latim, indicando que a galeria é enorme, antiga (latim é uma língua morta, afinal) e um grande ponto turístico internacional. “Quando ninguém está olhando eu toco uma escultura. Mármore, fria e suave como cetim. Mas os mais especiais são os mais solitários. Deus, que pena dos violinos. Em caixões de vidro eles tossem, eles esqueceram como cantar”.

E pouco depois vem minha parte favorita: “Obras-primas servem penas máximas”, ela diz, comparando estar num museu como estar numa prisão. Ela canta que os culpados por elas estarem ali são elas mesmas, há um preço a pagar quando se é atemporal. Olha que lindo isso.

“Aqui está o seu bilhete, bem-vindo aos túmulos. Eles [museus] são apenas mausoléus públicos. Os mortos-vivos preenchem cada cômodo”, ela canta, juntando no mesmo balaio as obras e seus apreciadores. Acho interessante pensar nisso: o que seria a liberdade para uma obra de arte? Ficar na casa de alguém, onde seria bem cuidada e apreciada com carinho apenas pelo dono da residência? Isso é melhor que ficar numa enorme galeria onde se será bem cuidado e apreciado de forma genérica pelos funcionários e por milhares de visitantes?

E o que é liberdade para um homem?

Por coincidência ou não, a pessoa que eu estava apaixonado vivia dentro de um relacionamento abusivo e toda essa metáfora de fuga também se aplicaria naquela história que testemunhei. Eu via de longe que ele estava sozinho ali, no caixão de vidro dele, tossindo ao invés de cantando, mas eu não podia fazer nada à respeito. Se pegasse esse violino, eu seria ladrão, e existem milhares de alarmes nessa vida de museu da gente. Eu precisava me contentar com o que eu podia fazer, que era apreciar de longe, de canto de olho, enquanto quem estava lá na frente e tinha chance de apreciar de pertinho não estava prestando atenção nas detalhes da obra.

Jurei que se aquele barco a remo viesse comigo, o levaria para lugares incríveis. Há mesmo um preço a pagar quando se é atemporal, o de poucos conseguirem enxergar seu valor o tempo todo. Mas jurei que conseguiria, pois vejo seu valor mesmo não estando na sua presença, sei seu valor mesmo convivendo apenas com réplicas e impressões borradas suas. Mas talvez eu não seja mesmo um colecionador de arte.

“Elas vão ficar lá em suas molduras de ouro. Para sempre, para sempre e um dia”

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