O que os gays podem fazer pelo feminismo?

Um tempão atrás teve uma marcha de mulheres contra o Eduardo Cunha que eu queria muito ter participado, acho aquele cara um imbecil e acho que nem preciso explicar os motivos. Mas quando eu falei pra uma amiga que queria ter ido, ela falou que eu não devia ir não, pois era uma marcha das mulheres.

Eu entendo o que minha amiga quis dizer. Feminismo está sendo muito falado por aí e tem muita gente e muitas marcas se aproveitando dessa discussão pra se promover, como se tudo fosse uma modinha, roubando o protagonismo da mulher nessa luta. E é contra isso que minha amiga estava falando. E eu concordo: feminismo é a insubmissão às situações de repressão ligadas especificamente ao seu gênero. É sobre colocar a mulher em lugares que, historicamente, ela não teve acesso – não por não querer, mas por não ter “permissão” ou oportunidade. Mulheres votando, mulheres no topo de empresas, mulheres na presidência. E por aí vai.

Mas eu queria ter ido à marcha mesmo assim, acho importante inflar esses movimentos. Quero estar do lado das lutas que me identifico, que acredito justas. Por exemplo, eu não quero que tenham só gays na Parada Gay. Eu acho importante termos heteros lutando pelos nossos direitos, isso é viver em sociedade, lutar pelo reconhecimento dos direitos dos outros, lutar por liberdade para todos. E não interessa quantos heteros têm numa Parada Gay, ela continuará sendo a Parada Gay. Certo? A diferença é que os heteros vão pra caminhada – e não pro palanque.

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“Eu preciso de feminismo pois: é fácil ignorar o sexismo quando ele funciona a seu favor”

Essa questão de roubo de protagonismo é complicada. A luta é da mulher, mas quem mais a oprime é o patriarcado, é o homem, então não é legal ter alguns deles do seu lado, jogando no seu time? Pelo menos também é assim que penso sobre direitos gays: quem mais faz contra a gente são os heteros homofóbicos, então toda vez que vejo um hetero defendendo gays, penso: “ufa, um a menos pra gente convencer, um a menos pra gente ter que lutar contra”. Mas enfim, sou homem, nunca saberei de verdade como é ser mulher, então posso estar errado sobre isso. Quem quiser, deixe nos comentários o seu ponto de vista sobre esse ponto.

O fato é que aí eu fui no meu Facebook e perguntei então: “o que os gays podem fazer pelo feminismo?” – e fiquei chocado que TODO MUNDO que respondeu era gay. E, poxa, eu fiz a pergunta para as mulheres!

Então te pergunto, amigo gay, o que você tem feito pelas mulheres? Alguma coisa real, no seu dia a dia, que vai de fato mudar essa situação, sabe? Creio que mudar suas ações no mundo real faz mais diferença na sociedade que só ler e debater sobre o assunto nas interwebs – apesar de tudo ser incrivelmente válido.

1- Parar de xingar seus amigos no feminino

A primeira coisa que pensei foi essa, bem pequena, mas eu acho bem simbólica. Muitos gays chamam seus amigos de “amigas” e usam outras palavras no feminino na hora de fazer humor. E tudo bem. Amo essa fluidez de gênero, também faço isso. Mas preste atenção se você não usa essas palavras só na hora de xingar. Vadia, vaca, piranha, ridícula, vagabunda. Todos esses adjetivos têm sinônimo no masculino, use eles – as mulheres já sofrem demais com esses xingamentos para até você passar eles pra frente por aí. E outra: tente usar só palavras boas no feminino com seus amigos. Maravilhosa, gostosa, perfeita, linda, arrasadora.

2 – Parar de falar que mulher mal humorada precisa de rola

Queridos, uma mulher mal humorada não está precisando de rola. O seu humor depende da quantidade de sexo que você faz? Aliás, bom humor depende da quantidade de sexo que uma pessoa faz com um homem? Se for assim, homem hetero e mulher lésbica seriam sempre mal humorados e sabemos que não é bem assim. Homem não é tudo na vida de uma mulher e todo mundo tem o direito de acordar com o pé esquerdo de vez em quando – e tem gente que é sempre mal humorada independente de qualquer coisa. Você nunca teve uma noite de sexo maravilhosa seguida de um dia péssimo? Pois é. Aliás, você acha que a vida sexual do outro é da sua conta? Desculpe, mas não é.

3 – Não rir de piada machista

Quando alguém fizer uma perto de você, basta simplesmente não rir. Se contarem uma diretamente para você, fique sério. Aliás, fale pra pessoa: “Não entendi, você pode me explicar qual é a graça?” e assista a pessoa ficar constrangida. Se você não aguenta mais piadinha sobre viado, imagina o que elas passam com as piadas de loiras burras, por exemplo. Vamos parar de passar pra frente essas coisas.

4 – Parar de cagar regra sobre o comportamento e as roupas delas

Se ela fala alto, usa decote, roupa curta, muita maquiagem, pouca maquiagem, fez plástica demais ou de menos, está gorda ou magra, não te interessa. Sua opinião sobre a aparência dela não precisa ser verbalizada. Pra ninguém. Muito menos pra ela. Fica de boinha na sua. Vamos combinar assim: se ela te perguntar objetivamente (“essa roupa está boa?”) aí sim você dá sua opinião. Fechou?

5 – Parar de chamar as mina de “racha”

Sério, reduzir uma pessoa inteira ao orgão sexual dela é muito idiota da sua parte. Uma mulher, qualquer mulher, é bem mais que isso. Do mesmo jeito que você é (ou pelos menos devia ser) mais que apenas o seu pinto.

Tem outras sugestões? Deixe nos comentários pra todo mundo ler.

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4 comentários em “O que os gays podem fazer pelo feminismo?

  1. Essa questão de protagonismo de lutas é um saco. Sempre dá problema e tem discussões infinitas que eu MORRO de preguiça de participar. Acho que as ~minorias~ devem se apoiar nas coisas do dia a dia mesmo, já que a questão do palaque é tão complicada. Sempre vai ter negro homofóbico, gay machista, mulher racista etc, mas acho legal qdo a gente une nossos poderes tb pelas causas com as quais a gente se identifica. Gostei das suas sugestões (especialmente parar de chamar mina de “racha” pq, gente, affe!) e gostaria de acrescentar pra conversar com a gente sobre assuntos diversos e não restringir aos chamados “assunto de mulherzinha” (leia-se roupa, dieta, crianças etc). Eu gosto muito de falar de outras coisas 🙂

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  2. O que gays podem fazer pelo feminismo:
    1. Se você vai fazer um vídeo sobre o que gays podem fazer pelo feminismo, chama uma mina pra falar sobre.
    2. Quem oprime as mulheres são os homens. Incluindo os gays. Sim, nós nos beneficiamos com o patriarcado, independente de nossa vontade. Gays são homens. Machismo opera sobre a questão do gênero, não sobre a questão da orientação sexual.
    3. Não fazer um vídeo público para falar que você discorda das mulheres na questão do que gays podem fazer pelo feminismo.
    4. Não transformar a questão num “e os gays?”.
    5. O fato das minas não te responderem quando você dez essa pergunta já diz muita coisa.
    6. Nojo de perereca além de machista é transfóbico.

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    1. Oi Phellipe, tudo bom? O vídeo é público exatamente pra gente debater, conversar. No post e no vídeo estou convidando todo mundo a comentar – igual você fez. Aliás, como você diz no item 5, eu queria ver mais comentários de mulheres aqui. E é, não chamei nenhuma mulher para vídeo mesmo, eu gravo sozinho no meu quarto todos os vídeos, sobre qualquer assunto – é um vlog pessoal. Estou falando de gay para gay, essa era a ideia. Quem sabe no futuro eu comece a fazer vídeo com convidados? Seria legal. Mas o texto foi revisado por uma amigona minha, muito ativa no movimento. Conversei muito com ela antes sobre algumas vertentes do movimento feminista que excluem gays da luta e sobre os motivos, roubo de protagonismo etc. Nem coube tudo no texto. Mas o que ela concluiu foi que quanto mais aliados, melhor – e eu acredito nisso também. Ela inclusive fez esse post aqui divulgando ó: https://www.facebook.com/mexy.cola/posts/1047790231951508?pnref=story

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  3. Amei, o texto..ops, primeira mulher a comentar. Tenho vários amigos gays, e durante muito tempo convivi com vários, não vou mentir ser chamada de racha, ouvir que tinham nojo de mulher, e que perereca parecia ferida, quando juntava mais de um.. me magoava. Então eu pensava porque então, nos imitam?? Quando fecham, fazem caricatura das mulheres, e os cabelos para bater? O salto alto? Era um pouco irônico. Passei a pensar todo gay pensar assim, é como se tivesse raiva da gente. Seu post me fez ver que existem os que pensam diferente..valeu..

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