O pop tem razão: “Fools”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?” Essa é uma questão de ‘Alta Fidelidade’, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem algum sentido pra mim.

“Killing Me Softly”, aquela música da Roberta Flack, fala sobre uma pessoa que se sente tocada por uma canção de uma maneira muito pessoal e dolorosa. “Era como se ele [o cantor] tivesse achado minhas cartas e as lido em voz alta”, ela diz. A música que me causa isso, no momento, é “Fools”, do Troye Sivan, faixa do álbum “Blue Neighbourhood”. Estão escancarados nessa letra todos os meus amores não-correspondidos e meus fracassados planos de tentar entrar no mundo de uma pessoa sem criar expectativa de relacionamento. Quando ouço Troye, é como se ouvisse o meu eu adolescente cantando pra mim.

“Estou cansado deste lugar, eu espero que as pessoas mudem. Preciso de tempo para substituir o que eu doei. E as minhas esperanças, elas são altas, devo mantê-las baixas. Embora eu tente me controlar, eu ainda quero tudo”.

Em seguida, fala mais sobre as expectativas de vida a dois, sobre como está sempre fazendo planos lá na frente mesmo sem certezas do presente. “Eu vejo piscinas e salas de estar e aviões. Eu vejo uma pequena casa na colina e os nomes das crianças. Vejo noites tranquilas e Tanqueray [marca de gin] com gelo. Mas tudo está se quebrando e o erro é meu”. Amo essa parte pois descreve, literalmente, o meu primeiro amor. Ele foi arrebatador de um jeito que nenhum outro foi – por falta de comparação na época e também devido à minha ingenuidade.

Acreditar em vida a dois, para sempre, era bem mais fácil aos 16 anos. E dei de cara com o muro, vendo que nada do que sonhei aconteceria, e sofri muito, durante muito tempo. Especialmente por colocar nos meus ombros a responsabilidade de tudo que deu errado. Eu achava que sofria sozinho, acompanhado das expectativas que criei, que a responsabilidade não era também dele, que o erro era todo meu.

Mas, como diz Troye no refrão, “apenas bobos se apaixonam por você”. Eu devia saber no começo que não daria certo. Eu o enxergava como uma pessoa em um nível superior ao meu devido à sua beleza e maior experiência, mas acho que foi exatamente isso que me fez perdê-lo. Queríamos coisas diferentes, e isso é normal, mas quando só uma metade sai machucada, pode saber que ela sai com muito mais dor que o normal. Éramos vizinhos e me doía vê-lo pela rua, então quando finalmente consegui mudar de casa, escrevi (e nunca mandei) um e-mail contando todo o meu alívio.

A terceira e última parte é mais esperançosa, pra mim. Troye canta como se já tivesse aceitado que aquela pessoa ali não vai ficar ao seu lado, lista os problemas dela, mas mostra otimismo para os próximos amores: “Nossas vidas não colidem, estou ciente disso. As diferenças e impulsos e a sua obsessão com as coisas pequenas. Você gosta ‘em barra’, e eu gosto de aerossol. Eu não dou a mínima, eu não vou desistir, eu ainda quero tudo”.

Como escrevi uma vez (nesse texto aqui), quando você menos esperar, e de onde você menos esperar, surgirá um novo alguém. Mas esse pensamento fica sempre ali no canto da minha cabeça e eu fingindo que não estou vendo. Fico sempre criando expectativas ao mesmo tempo que finjo não as ter.

Qualquer atenção recebida a mais, eu já construo uma vida inteira com a pessoa. Até quando vou brincar de me enganar? Apenas bobos se apaixonam? Talvez eu seja bem bobo mesmo.

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