O (primeiro) dia que eu usei uma saia

Desde que Laerte disse que era crossdresser, lá em 2011, me interessei no assunto. Hoje Laerte se identifica como mulher, mas na época ela apenas flertava com peças de roupas femininas e saía por aí usando saias, saltos e anéis, ainda se reconhecendo no gênero masculino. Achei aquilo muito legal e corajoso, mas mais do que isso, achei bonito. De brinco e de saia, Laerte arrasava, e então comecei a prestar atenção nisso. Especialmente depois de ver uma entrevista em que diz o seguinte:

Na verdade, a minha convicção é que todas as pessoas gostariam de experimentar muito mais do que aquilo que os códigos sociais permitem, recomendam e limitam. Em se tratando de roupas, acho que as pessoas gostariam de frequentar outros parâmetros e outras áreas também. A vontade de vestir roupas femininas é muito mais frequente do que se imagina. As pessoas sofrem muito por não fazer isso, por achar que é uma vergonha ou algum tipo de diminuição. Vestir uma roupa feminina é contestar um parâmetro de gênero que vigora na sociedade. No limite, é uma coisa política. No fundo, é uma contestação de proposta de mudança. Mas é um prazer meu também”.

Pesquisando sobre o assunto, achei muitas imagens legais e resolvi criar um tumblr só para elas, que batizei de Dressed Boys, uma piada com a expressão em inglês que quer dizer “vestido”, tanto a peça de roupa (“dress”) quanto o estado de estar usando qualquer roupa (“dressed”). Por causa dele, até servi de fonte para uma matéria do Internacional Business Time sobre o fim dos gêneros na hora de se vestir.

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Jadens Smith para a Louis Vuitton

Mas percebi que apesar de apoiar essa fluidez, eu estava fazendo bem pouco à respeito na minha vida. E tudo bem, eu sei que posso apenas admirar o movimento, sem fazer parte dele. Mas me sentia um pouco hipócrita de ficar aplaudindo gente que fazia algo que eu não apenas apoiava, mas que eu queria (e podia) fazer.

Então fui lá e fiz.

Saí da minha casa, entrei numa loja feminina que tinha provadores unissex (o que já achei super legal) e experimentei uma saia. Longa, preta, linda e barata (39 r$, Forever 21). Experimentei usar essa saia pra ver como eu me sentia (comigo mesmo e em relação aos outros). E tudo saiu muito melhor do que eu imaginava que seria.

Passei uma adolescência sendo xingado na rua por caras dentro de carros e caminhões. “Bicha”, “viado” e “emo” eram as palavras que eu mais ouvia, na luz do dia, indo ali no supermercado do meu bairro, um bairro familiar e recheado até o talo de igrejas protestantes. Na medida que cresci, isso diminuiu, mas eu não sei bem o motivo, talvez eu estar em outro bairro, outra cidade, eu não ter mais franja? Só sei que acreditava que usar uma saia na rua poderia ser o mesmo que pintar um alvo na testa – mas não foi. Desfilei sem problemas com ela na mesma avenida Paulista onde um gay foi atacado com uma lâmpada fluorescente na cara (falando nisso, o agressor foi condenado a 9 anos de prisão, mas está foragido). No meu caso era dia, é verdade. Eu não estava sozinho, é verdade. Mas ninguém pareceu se importar mais com minha roupa que eu mesmo.

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Eu de saia (Instagram: @gabrielkdt)

O caminho despertou olhares curiosos do porteiro do meu prédio, mas nem um pio do motorista do Uber que me levou até a casa de uma amiga. Lá, ela adorou o look. De lá, fomos a pé para a casa de outros amigos, passando antes numa padaria. Na reunião de colegas (todos heteros e cisgêneros, que eu saiba) ninguém falou nada. Achei bem educado da parte deles: eu nunca tinha usado saia na vida, era óbvio que havia um elefante branco na sala, mas ninguém quis comentar nada, talvez com medo de que até um elogio pudesse soar preconceituoso – eles sabem como eu sou uma maquininha de problematizar – ou que tudo poderia virar um texto depois.

Fui deixado na sala só com um dos casais e fiz uma piada sobre eles estarem bebendo a cerveja sem nos incluir e brinquei: “agora eu eu tô de saia eu tô me sentindo muito mais no direito de ir lá botar eles de castigo, igual mãe”. Só quando eu falei sobre, os outros falaram: “Inclusive, você está muito elegante”, me disse um dos amigos.

Eu sei que estou analisando um universo minúsculo aqui, mas achei tão legal saber que estou cercado de pessoas assim, sabe? Elegantes foram eles em não rirem, debocharem e até em nem reconhecerem a existência da peça como algo diferente antes que eu mesmo falasse sobre o assunto. E não é assim que devia ser sempre? Eles sabem de cabeça uma regra que eu costumo divulgar: sua opinião sobre a aparência de uma pessoa não precisa ser verbalizada a ninguém, muito menos à pessoa – a menos que ela te pergunte sua opinião.

A saia é super confortável, mas me trouxe vários grilos que nunca tive usando peças masculinas, como prestar atenção no quanto minhas pernas estavam à mostra, como sentar no sofá sem minha cueca aparecer, como andar no vento sem ela se prender em algo ou mostrar minha bunda, e por aí vai.

Mas de qualquer forma, achei libertador usar e recomendo a todos os homens que experimentem e quebrem seus preconceitos. Valerie Steele é uma das autoras de “A Queer History of Fashion: From the Closet to the Catwalk” (Yale University Press, 2013) e afirma que as campanhas com mulheres usando calças no século XX foram bem recebidas, mas as campanhas com homens usando saia ainda não. “Se os homens estão no poder, sempre há um limite para o quanto eles querem parecer os não-poderosos”, disse.

Vamos mudar essa situação? Sua masculinidade não depende do que você veste, cara.

“Travestis são homossexuais?”, cena do filme “Tudo Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar)”

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Um comentário em “O (primeiro) dia que eu usei uma saia

  1. Estou gostando do blog, parabéns ^^ Me identifiquei com esse post, não sei bem como me identifico no momento, mas passo por essa situação de olhares ou amigxs elegantes todas as vezes que saio de casa.

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