Só vai

Imagem no topo: Regina Spektor no vídeo de “Don’t Leave Me

Tenho um conhecido que é tão heavy user de redes sociais quanto eu. Além de “selfies-conceito”, muito textão filosófico sobre seu mercado de trabalho. Todos com muitos likes, mesmo que sejam sempre das mesmas pessoas. Nada contra, acho ótimo. Mas nem todo mundo curte: um conhecido que temos em comum tem pavor desse cara. Odeia os posts dele e já teceu comentários maldosíssimos sobre os Snaps que ele faz. Me fez pensar.

Um tempão atrás, um conhecido meu lançou uma música. Nossa amizade tinha sido abalada por acontecimentos malucos que nem valem ser discutidos aqui. Mesmo não seguindo ele em nenhuma rede social, a música chegou nas minhas mãos com uma rapidez absurda e fui dar play cheio de pedras nas mãos. Mas a música era boa, boa até demais pra ser a primeiríssima música de alguém. Me fez pensar.

Eu adoro as músicas do Troye Sivan, um moço novinho que canta sobre decepções amorosas hoje, mas que ficou famoso bem antes disso, como youtuber. Ouço as músicas dele, vejo as performances, os clipes e fico imaginando o que os conhecidos deles acham de tudo aquilo. O que os antigos colegas de escola, vizinhos e primos de segundo grau acham dele e das coisas que ele produz. Será que eles acompanham? Será que eles gostam? Será que eles entendem? Será que o Troye se importa com isso?

rachel
“Estou provavelmente 98% feliz e talvez 2% com ciúmes” [Friends]

Essas três pessoas me fizeram pensar um pouco no jeito que levo minha vida. Esse blog aqui tem uma audiência razoável e eu me exponho demais na maioria dos textos, sem preocupação com o amanhã; eu já posei pelado para um site; eu tenho um canal no YouTube também recheado de declarações absurdamente pessoais. Pra onde toda essa exposição está me levando? Ela está servindo para alguém?

Não teve um vídeo do meu canal que eu não tenha tido vontade de não postar no minutinho antes de upload completar 100%. Confesso que temo o recebimento deles, o entendimento e a aceitação. Acho que talvez esteja sendo idiota, ou pareça burro, ou pague de ridículo. É um exercício super complicado esse: como produtor de conteúdo, preciso aprender que, uma vez que algo é publicado, aquilo ali não é mais meu. É de quem consome, lê, ouve. Está aberto a interpretações, gostos, opiniões. E isso é tão gostoso quanto assustador. Como desapegar da opinião do outro sobre aquilo que você é e produz?

Dias atrás, uma marca fez uma ação em um festival de música que saiu pela culatra: publicou fotos do público – tiradas sem autorização deles – com legendas irônicas. Por exemplo: um álbum de fotos só com pessoas de cabelo azul tinha como legenda uma piada sobre se achar diferente por ter os fios dessa cor. Mas quem disse que quem pinta cabelo dessa cor quer ser diferente? Quem disse que fazer algo que outros estão fazendo é, necessariamente, ruim? Essa ação deles mexeu comigo de um jeito ruim: as pessoas estão ali, se divertindo, simplesmente sendo elas, e tem alguém sempre com uma lupa, prontinho para criticar. Não posso dizer que me excluo disso – a gente julga os outros o tempo todo, é um exercício difícil parar de fazê-lo -, mas divulgar isso, verbalizar isso, é outra história.

Aí a Ariane Freitas, uma das criadoras do Indiretas do Bem, postou isso no Facebook pessoal dela:

Todos os dias, sem exceção, alguém vem falar comigo sobre autoestima. Às vezes são e-mails de leitoras, às vezes são mensagens de alguém que me encontrou no Instagram, às vezes um encontrão que dou com pessoas que conhecem meu trabalho na rua.

Antes achava bizarro alguém me agradecer simplesmente por dizer que sou feliz exatamente como sou e que todos têm o direito de serem felizes também. Mesmo tendo sido difícil chegar a esse momento em que olho pro espelho e me amo com o cabelo da cor que eu quiser, os piercings, as tatuagens e todos os quilos a mais, eu tinha dificuldade pra entender por que as pessoas se sentiam tão gratas pelo mínimo, sabe?

Mas aí, em dias como hoje, em que eu me deparo com marcas fazendo campanhas que, para soarem ~divertidas~, ridicularizam pessoas que só estavam ali, tranquilas, curtindo um evento e se sentindo bem, eu entendo. Eu entendo por que as pessoas têm tanta dificuldade em se amar: o mundo segue dizendo pra elas que elas não podem. Que elas não devem. Que elas precisam estar dentro de um padrão. E que, quando não estão, só porque existem outras pessoas parecidas com elas, merecem ser ridicularizadas por tentarem ser ~diferentonas. […]

Mas como desejar que um meteoro caia e destrua todos nós não chega a resolver esse problema, eu deixo aqui uma dica: não permita que ninguém aponte o dedo pra você e diga que a maneira que você escolheu para viver a sua vida e expressar a sua alegria ou o seu estilo estão errados. Não deixe ninguém te diminuir pela roupa que veste, a cor do cabelo, a maneira como se comporta. Por ser mulher. Por ser gorda ou magra demais. Simplesmente não deixe um comentário idiota estragar seu dia.

Muita gente ainda procura aceitação externa e eu não posso julgar isso. A gente é bombardeado por informações o tempo todo. Muitas vezes de pessoas que a gente admira, de marcas que a gente consome. Mas sério: se você está se sentindo bem, todo comentário vazio que vier de fora merece um grande e sonoro FODA-SE. […]

escreve
Indiretas do Bem

Ter lido isso mudou umas coisas aqui dentro. É muito fácil a gente focar nas nossas inseguranças, nos comentários negativos que ouvimos (ou que achamos que estão sendo feitos) sobre a gente. E outra: como posto muito e muita coisa longa (textões ou vídeos com mais de 5 minutos) sei que meus amigos não consomem meu conteúdo – e entendo, eles já me vêem todos os dias ou conversam comigo por telefone ou WhatsApp. Só que muitas vezes a soma dessas duas coisas me dá a impressão que, ao desabafar no digital, eu acabo me isolando mais ainda de contatos reais.

Preciso me lembrar sempre que isso é invenção da minha cabeça. Eu tenho relações de amizade incríveis e, apesar de ser um pouco sensível a ambientes e pessoas novas, deixei pra trás meus dias de menino tímido. Abro os vídeos que já postei e leio comentários carinhosos sobre como eles são legais e já perdi as contas dos inboxes e e-mails de pessoas falando sobre como um texto meu em particular fez elas pensarem diferente sobre elas mesmas ou sobre o tema que escrevi sobre. E é pra essas pessoas que continuo escrevendo e produzindo e dando minha cara a tapa. É sobre continuar fazendo o que você gosta para pessoas que gostam do que você faz – não sobre fazer, a qualquer custo, o que querem que você faça.

Além disso, refletir sobre tudo isso me deu um novo gás de auto-estima e me lembrou de outra amigona que sempre fala: “reputação não paga conta”. Vai lá e faz o que te faz sentir bem com você, especialmente se sua escolha não interfere na escolha dos outros. Quem quiser, quem gostar, vai acompanhar. Se é cabelo azul, vai. Se é malhar sem parar, vai. Se é comer chantilly direto da latinha, vai. Se é piercing no septo, vai. Se é relacionamento aberto, vai. Eu podia ficar aqui listando exemplos para sempre. O que quero dizer, em resumo, é bem simples: viver para agradar os outros é simplesmente um desperdício da sua vida.

Se o que a gente faz da vida e nos nossos dias não faz mal a ninguém, já está fazendo bem pra todo mundo.

E para os haters:

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