Perguntei pro garçom do karaokê quantas vezes ele ouve “Evidências” por noite

Se ao ouvir a frase “quando eu digo que deixei de te amar” você já completa com “é porque eu te amo”, eu vou contar agora para você uma história muito triste.

Como muitas pessoas, eu amo um karaokê. Eu gosto de cantar – apesar de não ser bom no assunto – e gosto do evento que acaba virando ir em um.

Vamos em um karaokê oriental tradicional, com velhinhos cantando em japonês? Vamos em um mais de playba? Um mais roots com cerveja a 5 reais? Em uma salinha reservada? Semi-reservada? Palco público? A noite é uma criança.

Gosto também dos personagens que encontramos: o velhão que vai sozinho e bebe whisky e canta Frank Sinatra; o carinha que canta diva gay com toda potência e fazendo a coreografia; os amigos que se unem para cantar aquele one hit wonder da banda da adolescência deles; as tias que cantam MPB anos 80 envergonhadas, os coxas que cantam Mamonas Assassinas achando que aquelas letras são engraçadas.

Mas acima de todos e tudo está o grande hit nacional do karaokê: “Evidências”, clássico de Chitãozinho e Xororó.

E era isso mesmo que alguém estava cantando quando o garçom trouxe minha comida. Enquanto ele servia, sorridente, perguntei:

– Você ouve muito essa música aqui, né?

Ele, literalmente, perdeu por completo o sorriso. Soltou o último item na mesa, colocou a mão na testa, e disse:

– Ouço.

Eu ri, achando que era para ser uma piada. E perguntei outra coisa:

– Qual foi o máximo de vezes que você ouviu isso numa noite?

– Dezesseis – disse, rapidamente, como se a resposta estivesse na ponta da língua e isso fosse uma anedota recorrente dele.

Eita.

Fiquei calado e continuei assistindo às meninas que estavam no palco gritando “Evidências” a plenos pulmões no microfone precário do lugar, todos nas mesas cantando junto. Super good vibe, claro. Mas o cenário era exatamente o oposto na cara de quem trabalhava ali todo dia. Uma coisa é ir no karaokê uma vez a cada dois meses; outra é estar dentro de um todo fucking dia.

Ossos do ofício, eu sei. E eles sabem também, mais do que ninguém. Mas fiquei pensando na relação que eu tenho com minhas músicas favoritas: geralmente, ouço até enjoar e não aguentar mais ouvir uma nota delas. Penso nas músicas que a gente deixa de gostar pois elas foram, por algum período, a música do nosso despertador. E aí pensei como seria minha relação com música, em geral, se eu trabalhasse num lugar assim, que todo dia eu ouço só os hits mais recentes e comerciais ou só as mesmas coisas velhas, todas cantadas por amadores – por cima de um tecladinho com bateria eletrônica. Será que eu acharia um saco ou será que eu conseguiria levar na esportiva todos os dias, entrar na brincadeira e me divertir no meu emprego?

Não sei, só sei que “Evidências” eu não canto mais. Coitado dos cara.

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