É possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?

Hannah, da série “Girls” (HBO): “Eu não quero um namorado, eu só quero alguém que queira ficar comigo o tempo todo, me ache a melhor pessoa do mundo e queira fazer sexo só comigo”

Se você abrir aí sua lista no Instagram, é bem provável que tenha um sem número de crushs, né? Várias pessoas interessantes (ou só bonitas mesmo) que você segue para ficar suspirando sempre que abre a timeline. Apesar de sabermos saber disso, muita gente tem dificuldade para dar um passinho a mais e experimentar uma relação a três ou um relacionamento aberto. Ou, menos que isso, temos até dificuldade em entender caso uma pessoa que estamos ficando, mesmo que de forma inconstante, fique com outras pessoas. Nos sentimos traídos até por gente que não tem compromisso com a gente. De onde vem essa insegurança toda?

Somos tão possessivos que inventamos o casamento. É uma coisa incrível: as pessoas estão sempre evoluindo, mudando de opinião e de gosto, mas apesar disso escolhem uma pessoa para passarem o resto da vida juntas – e oficializam essa escolha perante várias testemunhas e envolvendo leis e religiões. Elegem um alguém e acreditam que ele vai evoluir igual, pro mesmo lugar e no mesmo ritmo. Isso devia acontecer, não sei, 4 ou 5 vezes por ano no mundo. Mas acontece com uma frequência infinitamente maior que essa.

E qual o motivo disso? Essas pessoas estão realmente apaixonadas? Bom, de fora não tem como eu saber. O que eu sei é que uma boa parte delas só se casa por acreditar que precisa – não necessariamente por um desejo genuíno de fazê-lo.

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Ariel, a princesa Disney mais trouxa: deixou de ser sereia pra ir correr atrás de homem

Explico: somos seres de cultura. Tudo que somos e gostamos nos foi ensinado. Mas não formamos uma opinião sobre casamento, por exemplo, depois de ir a uma palestra. Formamos nossa opinião sobre o assunto ao longo do tempo, absorvendo o cenário em que somos colocados. A ideia do amor romântico nasce depois de sermos expostos a anos e anos de estímulo a ela, não apenas com o exemplo da relação dos nossos pais, mas também a filmes e livros e novelas em que o final feliz é estar acompanhado. Puxa, até os livros e desenhos infantis ensinam isso! Depois de nascer e crescer ouvindo que essa é a resposta, ninguém tem mais nenhuma dúvida.

E é simplesmente por isso que a ideia de gostar de mais de uma pessoa ao mesmo tempo assusta a maioria. A pressão para fazer uma escolha. A desconfiança de relacionamentos sérios que são abertos ou em trio ou em grupo. A vergonha de ter mais de um amor. A tal da insegurança de dividir a pessoa amada. Tudo um resultado de uma cultura que solidificou a opressão que as religiões trouxeram, cheias de regras e conceitos que não fazem parte do ser humano em estado, digamos, primitivo:

A liberdade sexual dos primeiros moradores do Brasil seria logo substituída pela noção de transgressão, pelo pudor excessivo, pelas proibições e pelo preconceito – a homofobia, por exemplo, nascia ali. Em que contribuíram os europeus para a sexualidade das Américas além de nos apresentar à culpa?

Tudo o que era possível trazer para cá, em termos sexuais, já era conhecido entre os nativos: homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, bigamia, poligamia (…), masturbação mútua, sexo anal, oral, grupal. Sexualmente falando, eram os indígenas os avançados e os homens brancos, os primitivos. Mas foi só chegar a igreja e pronto: a pretexto de civilizar-nos, destruíram milênios de conhecimento autóctone sobre a sexualidade.

As próprias narrativas dos primeiros cronistas são contaminadas pelo puritanismo da época. No México, Hernán Cortés escreveu: “fomos informados de que são todos sodomitas e usam aquele abominável pecado”. O tema da sexualidade, é claro, sofreu censura por parte dos colonizadores, e só recentemente historiadores e arqueólogos têm apresentado descobertas neste campo. Cortés estava bem informado: entre os maias, a homossexualidade era frequente, e uma espécie de rito de passagem da infância para a adolescência (como ocorre, aliás, com tantos homens e mulheres, de forma velada, em todos os tempos).

(…) Na América [do Norte] protestante, a repressão não foi diferente. Muito igualitária, a sociedade Cherokee dava às mulheres postos semelhantes aos dos homens; elas podiam integrar o conselho da tribo e ser guerreiras. O adultério era permitido a ambos os sexos, sem punição, assim como o divórcio: bastava a mulher colocar os pertences do homem para fora da casa.

Havia ainda os transgêneros, encontrados em mais de 150 tribos norte-americanas. Chamados de Two-Spirit (“dois espíritos”) ou “berdaches”, eram homens que gostavam de estar entre as mulheres, fazer as coisas que elas faziam e vestir-se como elas. Ou o contrário: mulheres que gostavam de se vestir como homens. Os primeiros relatos de colonizadores sobre os Two-Spirit aparecem já no século 16. O preconceito contra eles só vai surgir mais tarde, por influência do homem branco. A partir daí, eles passam a ser rejeitados por suas tribos e são marginalizados. (fonte)

Viu?

Interessante pensar nisso a longo prazo: tudo que a gente vê ao nosso redor parece o normal, o natural, pois é tudo que conhecemos. Mas é legal pensar em mais possibilidade, ousar discordar, buscar outras opções. Nem que seja para ter certeza que não são para você.

Experimentar hoje pode economizar muito sofrimento lá na frente, pois você vai seguir para um futuro onde você tem mais certeza de quem você é e do que realmente gosta. E aí é só alegria.

ADBVoltando à questão de gostar de duas pessoas ao mesmo tempo

A primeira vez que eu li sobre isso foi em “O Anjo de Butes”, livro autobiográfico do artista plástico Fernando Carpaneda em que ele conta sobre o longo relacionamento que teve em trio, com um cara e uma mulher. Tudo que tinha lido ou visto antes disso terminava com o personagem tendo que fazer uma escolha e aqui não era o caso. Fiquei fascinado. E não era um relacionamento aberto, era um acordo de fidelidade a três. Me pareceu uma ideia muito interessante. Ainda me parece.

O problema é que isso ainda é pouco conversado e aceito. Às vezes você acha essa “novidade” uma ideia interessante mas ela é descartada de cara pela pessoa ao seu lado, pois ela não foi criada para isso – no sentido de que nada sobre essa lado da moeda lhe foi ensinado, nunca.

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Tirinha do Tiago Silva (Quadrinhos Impossíveis)

Se você buscar aí no Google, vai ver inúmeras pesquisas sobre monogamia ser uma ilusão, sobre orientação sexual que flutua, e vai até achar várias matérias legais sobre amar duas pessoas ao mesmo tempo, até entrevistando especialistas na área, mas sempre com uma conclusão absurda: a de que se você está em um relacionamento e sentindo coisas por uma outra pessoa, isso significa que o seu relacionamento está deficiente em alguma coisa e você encontrou alguém que complete essa falta.

Isso é mentira, nem sempre é esse o caso.

As pessoas são diferentes. Elas nos atraem por motivos diferentes. E é por isso que é, sim, possível amar duas pessoas (ou mais!) ao mesmo tempo. Todos os nossos outros amores na vida são plurais. Amamos, ao mesmo tempo, amigos, pais, irmãos. Ter apenas um amor parceiro/cônjuge é uma construção social, como disse lá em cima.

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Opções do Facebook para status de relacionamento

Matematicamente falando: uma pessoa te atrai por um conjunto de características, outra pessoa por outro conjunto. Faz muito mais sentido somar os conjuntos que buscar uma pessoa que tenha os dois conjuntos. Esperar ter tudo em uma pessoa só é bastante pressão, apesar de ser relativamente possível se as duas partes estiverem dispostas (a ceder e/ou a reprimir certos desejos).

Contanto que a gente não destrua possibilidades afetivas, precisamos desconstruir essa ideia de amor romântico. O número de variáveis dentro de uma relação é infinito e flertar é uma brincadeira para o ego. Na minha observação, aliás, sempre aconteceu o contrário: os relacionamentos que tive e testemunhei que mais pareciam saudáveis vistos do lado de fora eram, na verdade, os mais malucos. A falta de diálogo e de combinados tem um preço alto – enquanto, como diz o ditado, o que é combinado não sai caro.

Com as cartas na mesa a gente joga melhor: o que pode, pode; o que não pode, não pode. Mas como saber o que pode e o que não pode se nunca conversamos sobre nossas vontades de forma honesta e aberta? Se ficarmos cada um de um lado deduzindo o que o outro quer e gosta e pensa, está aí uma relação que não vai mesmo evoluir igual, pro mesmo lugar e nem no mesmo ritmo.

Sei lá.

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Alguns dos tipos de relacionamento possíveis
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6 comentários em “É possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?

  1. Eu acho tão simples ter um relacionamento. Se as duas pessoas forem sinceras consigo mesmas e com o outro. Pronto, tudo será maravilhoso! Se existe um acordo, assim como vc disse, com as cartas na mesa, o acordo deve ser cumprido, o acordo é monogamia? Então seremos monogamicos. Um dos dois n quer ser mais monogamico, então bora conversar com o parceiro e chegar em um ponto em comum juntos. Se os dois concordarem então pq não ter uma terceira, uma quarta, uma quinta pessoa? Ou um relacionamento aberto? Acho que o que não podemos é descartar a possibilidade do amor monogamico que existe sim! Existe o monogamico e a poligamia, as duas devem ser respeitadas e seguidas por quem tiver vontade de seguir. Muitas pessoas confundem desejo com amor ou paixão. Ter desejo, tesão, é natural, normal, comum, mesmo quando se ama alguém, mesmo estando em um relacionamento amoroso. Não se pode colocar desejo e amor no mesmo patamar, as pessoas não dividem suas vidas com outras pessoas pelas quais sentem tesão, elas transam, se satisfazem e acabou. Amor é troca, cumplicidade, confiança, então assim, talvez seja possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, mas não confunda amor com desejo.

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  2. Gente, que texto maravilhoso. Passei por uma situação esses dias mais ou menos assim. Fiquei incomodada quando ouvi a garota que estava ficando dizer que se pudesse ficaria comigo e com a ex dela. Depois de parar pra pensar ~e agora depois de ler esse texto~ fiquei tão de boa com a ideia, pra que esquentar a cabeça com isso, devemos deixar as pessoas livres para amar, querer, sentir e temos que nos deixar sermos livres.

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