Precisamos falar sobre Bill Haverchuck

(contém spoilers)

Minha memória falha quando tento lembrar onde eu estava quando “Freaks and Geeks” foi ao ar, entre 1999 e 2000. Lembro de ter visto alguns episódios e de ter achado engraçado, mas nada demais. E passou e sumiu e fim. Até que, outro dia, vi que a série entrou no catálogo da Netflix e resolvi rever.

O produtor é Judd Apatow, que depois fez “Superbad” e “O Virgem de 40 Anos”, mas a série em nada lembra essas produções. “Freaks and Geeks” se passa no colegial dos anos 80 e mostra o outro lado da moeda de séries com a mesma temática: são os conflitos e desejos dos jovens, mas daqueles que se sentem fora de lugar na escola, na família e no próprio grupo de amigos.

Cada episódio você se apaixona mais por um dos personagens. No meu caso, era sempre pelo trio formado por Sam, Neil e Bill, os geeks. Três jovens entrando na puberdade, lidando com primeiros amores, pais conservadores, bullying e pelos debaixo dos braços.

O curioso é que, até certo ponto da temporada, Bill – o mais geek dos três – era apenas o degrau cômico. Até que, no 14º episódio (a série só teve uma temporada e são 18 episódios ao todo), temos uma visão mais clara de sua vida fora do colégio. Ele foi criado apenas pela mãe e, talvez por isso, é muito independente – e profundamente solitário.

Nada fala melhor que essa cena, ao som de “I’m One” do The Who, e esse texto sobre ela:

As melhores cenas no cinema e na televisão são as que funcionam perfeitamente sem qualquer contexto, e esta não é diferente. Você não precisa saber quem esse personagem é em relação ao resto da série porque a cena diz quem ele é. Ele é sozinho, e como a voz de Pete Townshend confirma sobre a trilha sonora, ele é um perdedor sem chance de ganhar. Ele faz uma pequena refeição para si mesmo – um sanduíche de queijo com um brownie e um copo de leite – e caminha até o sofá para assistir TV. Ele ri muito assistindo um stand-up de Garry Shandling. Está implícito que esta é uma ocorrência frequente em sua casa, mas também está implícito que tudo bem por ele. Por um breve momento no tempo, ele está consigo mesmo, feliz e livre, e ele está compartilhando algo com um amigo, mesmo que exista uma tela entre eles. (fonte)

Eu chorei assistindo esse trecho, percebendo que eu sou o Bill até hoje. Ele se isola em seu mundinho para escapar do estresse e da humilhação que sofre na vida real, e todos fazemos isso de alguma forma. Tem quem se isole trabalhando muito para evitar lidar com a família, ou usando drogas para não lidar com nada. Eu e Bill escolhemos o entretenimento, algo que nos distrai e acaricia ao mesmo tempo.

Ao longo de todo o seriado, ele é o que mais faz referências a filmes e séries, algumas vezes dizendo que preferia estar assistindo algo a estar vivendo a situação em que ele está. A realidade é dura: o roteiro sugere que sua mãe é uma ex-dançarina usuária de drogas, os dois moram em uma pequena casa no subúrbio e seu pai nem é mencionado direito. Assistir TV sozinho é uma maravilha comparado às realidades que ele precisa enfrentar.

Obviamente meu dia a dia não tem exatamente as mesmas coisas, mas cada um sabe com o que precisa lidar todo dia. Quando eu tinha a idade de Bill lidava com o divórcio dos meus pais, com minha depressão, com más notas e com a descoberta (e negação) da minha homossexualidade. Quando somos jovens e lidamos com problemas adultos, queremos crescer logo, imaginando que eles vão sumir ou que finalmente saberemos como resolvê-los. E sei que eu não lido bem, ainda, com muita coisa dessa vida de adulto que me apressei tanto para ter. Por isso, também me isolo nas mesmas coisas que ele. Eu não sei bem o está acontecendo no mundo, na economia e na política, mas eu te digo todas as falas dos meus filmes favoritos. E te corrijo se você citar alguma com uma palavra trocada. Acompanho com fidelidade alguns comediantes. Tudo que acontece comigo me lebra de algo que assisti ou li – e acho que deveria ser o contrário. Vejo e revejo meus episódios favoritos das minhas séries favoritas. Olha só eu aqui, escrevendo sobre uma série, afinal. Somos todos Bill.

Nesse mesmo episódio, vemos com mais clareza todas as situações que são colocadas na frente de Bill e que ele precisa lidar apesar da pouca idade, em especial uma: lidar com os namorados da mãe. Dessa vez, ela está saindo com o professor de educação física dele, um dos adultos que ele mais detesta por ter permitido, por anos, que ele fosse ritualisticamente feito de bobo pelos atletas do colégio e que ele fosse sempre último a ser escolhido para os times (“Talvez eu seja bom, mas vocês nunca vão saber, pois não me dão oportunidade”). Mais tarde, outra cena de cortar o coração: depois de algumas brigas, ele conversa sério com o professor e percebe que talvez esse cara consiga fazer sua mãe feliz, finalmente, e que por isso ele precisa abrir mão das desavenças entre os dois, já que o bem maior é a felicidade da mulher que o criou sozinha. E lá vou eu chorar de novo.

Sei lá. Assista essa série. Para ver melhor como você evoluiu. Para entender melhor pelo que você passou. Para saber melhor quem você é. Para entender melhor seus filhos. Para entender melhor seus pais.

murray

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2 comentários em “Precisamos falar sobre Bill Haverchuck

  1. Parabéns pelo blog (conheci semana passada por um link do Entendidos e li um monte de textos no mesmo dia) e por esse post (fiquei emocionado só de ler).
    Já é um dos meus blogs preferidos!

    Curtir

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