Aquele grupinho de gays bem sucedidos (não) é uma farsa

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Uma vez eu escrevi sobre “sucesso” ser a palavra mais vazia que existe. O que é sucesso para um, não é para os demais. A gente compara os momentos de holofote dos outros com nossos momentos de bastidores e isso cria uma confusão mental imensa, pelo menos em mim.

Como será que tal pessoa é tão bonita e rica e namora com esse partidão e tem esse emprego incrível, e eu aqui feio e pobre e sozinho num empreguinho? A questão é que é isso que as pessoas projetam. E é normal, todo mundo quer mostrar pros outros só o que têm de melhor, ou pelo menos o lado bom daquilo que têm. Não é público o tanto de produto que a pessoa passa pra ficar com aquele cabelo, se ela fez uma plástica, as comidas gostosas que deixou de comer pra se manter na dieta, a dívida que fez depois de comprar aquelas roupas incríveis da marca foda, o que ela deixou de fazer pra poder conseguir viajar para aquele lugar, nem que o namoro está por um fio ou que o relacionamento é de fachada.

Vou tentar contar aqui uma história que é real (muito real) mas não quero, de maneira alguma, expôr as pessoas envolvidas, então vou mudar algumas coisas, mas basicamente foi assim:

Minha auto estima não é das melhores. Sou de fases. Uns dias me sinto o cara mais legal do mundo, outros eu não quero nem levantar da cama. Paralelo a isso, sempre tive problemas para me encaixar em coletivos. Tenho amigos maravilhosos, mas todos funcionam na minha vida quase que individualmente. Eu não tenho aquele grupinho de amigos inseparáveis que faz tudo junto. Parte por ter tido uma adolescência complicada, com minha homossexualidade escondida e o medo de ser exposto. A outra parte tem mais a ver com uma (eterna, pelo visto) dificuldade de encontrar um meio termo entre as atividades que parecem ser mais, digamos, populares entre os gays no meu círculo de amizade: cuido demais da minha saúde pra beber pra caralho, ir pra balada e dormir pouco todos os dias – e meu trabalho nem me permitiria isso -, mas também não cuido o suficiente pra ter uma turminha que sai pra pedalar ou fazer, sei lá, mahamudra no Parque Ibirapuera sábado de manhã. Meu meio termo é Netflix e livros, o que posso fazer sozinho – e acabo fazendo sozinho mesmo. Talvez isso até explique o motivo de eu sempre estar querendo namorar – é carência de companhia, não necessariamente de sentimentos.

Enfim, divaguei. Mas é pra explicar que essa falta de grupinho me deixa incomodado. Sempre sinto que eu devia ter um, que se eu tivesse minha vida seria não apenas diferente, e sim melhor. Mas as poucas tentativas de fazer parte de um grupo já existente foram pra lá de frustradas. Sentia dificuldade em acompanhar o ritmo de novidades, de coisas que me fariam sentir que faço parte: as bandas, as divas pops, as roupas, os looks, os conceitos, as discussões, a rotina, as fofocas e até mesmo a tolerância alcóolica deles nem sempre fazem eco às minhas. Eu tenho meu gosto e meu ritmo para as coisas, para descobrir, gostar e conquistar – sinto que estou velho demais para viver dentro de um episódio eterno de “Skins”, mas sei que sou novo demais para viver dentro de “Golden Girls” também. Talvez seja apenas o caso de não ter achado “a minha” turma – mas se começar a falar disso vou divagar de novo.

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Sou um jovem gay em São Paulo e, como não sou nada discreto e fora do meio, acabo fazendo contato com vários grupos. Um amigo aqui, outro ali, prazer, tudo bom? Conheço MUITA gente legal e alguns grupos de amigos que me dão essa sensação (gostosa e horrível) de “puxa, queria estar ali”. Mas basta conviver um pouquinho e bate aquele sentimento de não-pertencimento: se é pra achar um grupo de amigos, eu devia ficar confortável com eles, certo? Mas nunca parece ser o caso. Me sinto vigiado, tanto por eles quanto por mim mesmo. Observado. Não quero cometer deslizes. É divertido no começo, mas é exaustivo no final e eu acabo me fechando. Não é esse aqui o meu grupo, então aí saio. Aliás, na maioria das vezes, mal entro: essa distância faz com que eu nem seja considerado para vários convites, eventos, festas, jantares etc. E vira um ciclo sem fim de não-ser-convidado, não-ser-visto e não-ser-convidado-por-não-ter-sido-visto.

Às vezes isso me dá vontade de chorar (pois acho que essa sensação eterna de não-pertencimento pode ser a raiz de um monte de problemas sociais que eu tenho – e que ninguém vai ter paciência, nunca, de olhar com cuidado pra mim ou me ouvir de verdade). Mas às vezes isso me dá vontade de dar graças aos céus (pois por mais que eu admire certos grupos e pessoas, tenho um medo de rejeição tão grande que acho que o preço para descobrir pode ser muito alto).

Mas c’est la vie. Vida que segue.

Por uma enorme coincidência, conheci uma menina dia desses, de uma família bem rica, dona de alguns imóveis na cidade. Em um dos imóveis morava um desses gays Alpha da noitezinha de São Paulo – quem vive aqui sabe como essas coisas são reais. Aquele carinha que onde você vai, mesmo que você não queira, tem alguém especulando sobre onde foi, o que fez, quem está pegando, se é relacionamento aberto ou não, onde passou férias, qual o novo emprego etc. E aí ela me contou algumas fofocas sobre aluguéis atrasados, brigas com vizinhos, mudanças de cidade, intervenção dos pais.

Por alguns segundos, confesso, abri um sorriso. Ufa, a vida dos outros não é tão perfeita, afinal de contas! Posso respirar melhor agora, a minha vida não é tão merda assim! O Fulaninho Perfeitinho Famosinho está pior que eu! Mas logo mudei de expressão. Primeiro por estar, aparentemente, feliz com a desgraça alheia – e essa é uma coisa que eu não posso apoiar. Segundo, pois, puxa, eu já devia saber disso, afinal. É só abrir meu próprio Instagram ou Snapchat: lá você não vê nada sobre minha enorme dívida no banco, sobre os dias que acordo me sentindo um lixo, sobre minhas sérias brigas com minha família. Isso tudo está embaixo do meu tapete e é óbvio que as outras pessoas estão fazendo a mesma coisa.

E aí pensei até em outra coisa: pra quê estou dando tanta importância para tudo isso? Como eu disse, o que é sucesso para um, não é para os demais. Eu não gostaria de voltar a morar com meus pais, mas vai que o Fulano gostou dessa mudança? Quem sou eu pra dizer que esses acontecimentos na vida do cara fazem da vida dele uma merda? O que eu preciso é mudar ainda mais o meu conceito de “sucesso”. Eu falo isso o tempo inteiro e mesmo assim ainda não aprendi, pelo visto.

O que funciona pra ele ali, não funciona pra mim. O que ele tá fazendo ali não é o que eu queria estar fazendo. A vida que ele leva não é a vida que eu quero. Mas e o contrário? Se eu também escondo o lado ruim da minha vida, será que tem alguém vendo ela de longe e achando que eu sou foda? Será que tem alguém que me acha bonito e, por isso, se acha menos bonito? Queria pode fazer algo à respeito, mas não é de propósito. Estamos cada um apenas vivendo nossas vidas, sem noção de como podemos estar afetando os outros. E esse também é (ou pode ser) o caso desses grupinhos todos, que me fazem sentir tantas coisas: claro, alguns por aí estão vivendo de desconexão, escravos do luxo ou da aparência do luxo, mas muitos estão simplesmente vivendo suas vidas e todas essas deduções sobre eles vieram de mim e apenas de mim.

Mas se eu sei que a gente compara os momentos de holofote dos outros com nossos momentos de bastidores, pra quê eu ainda faço essa comparação? Aliás, pra quê eu comparo tanto meus bastidores com meu holofote até hoje? Porra, por que, às vezes, ainda me sinto tão mal com o que eu sou e tenho?

eu
Foto: Instagram @gabrielkdt
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6 comentários em “Aquele grupinho de gays bem sucedidos (não) é uma farsa

  1. Esse lance sobre não se encaixar, se comparar, sentir vontade de chorar.. rs você é o novo Tati Bernardi, e expressa exatamente o que (acho) uma boa fatia da sociedade pós-adolescência porém não completamente adulto passa. Amei seu blog

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