O dicionário de cada um

Cada um tem, dentro de si, um dicionário muito pessoal. Quando você consulta o meu verbete para a palavra “amizade”, por exemplo, vai ver ali toda a minha história. Minhas experiências, meus sentimentos, o que gostei e não gostei, o que vivi e o que quis viver. O verbete das outras pessoas pode ser muito diferente, mesmo que tenham algo de comum entre eles.

Verbetes como “relacionamento”, “felicidade”, “religião”, “sucesso” e “família” também têm diferentes definições de acordo com cada dicionário pessoal.

A boa notícia é que nenhum desses verbetes está escrito em pedra, o nosso trabalho é sempre reescrevê-los, mudar o sentido deles, resignificar de acordo com tudo que aprendemos todo dia.

Vou dar um exemplo: eu sofri muito quando terminei com meu primeiro amor, muito mesmo, achei que eu nunca mais ia parar de chorar ou amar novamente. Hoje enxergo o que senti de uma outra maneira, mas isso era tudo que eu podia ter sentido na época. Sem outras grandes experiências, meu verbete para “amor” não era longo e, pior que isso, era cheio de explicações que não tinham sido criadas por mim, e sim pelos livros, filmes e discos que populavam minhas estantes na época.

Eu acreditava, por exemplo, que sofrimento validava o amor. Acostumado a ver peripécias românticas em filmes e historinhas dramáticas em clipes de música pop, achava que quanto mais sacrifício fosse feito, que quanto mais complicada fosse a história, que quanto mais exageradas as coisas fossem, maior seria esse amor, mais pleno ele seria, mais completo e mais aconchegante. Demorei muito para entender que não precisava ser assim, que não é assim.

Na verdade, eu sempre entendi isso do ponto de vista intelectual (as pessoas são diferentes, que grande novidade!), mas nunca conseguia colocar na prática. Eu achava que eu ia achar alguém ideal e que essa pessoa ia me completar e curar. Só que, com isso, sempre foi complicado ficar com os ombros relaxados, parar de morder as bochechas por dentro, respirar fundo de verdade até sentir uma sensação gostosa atrás do umbigo. Toda essa dor e incômodo que eu sentia – simplesmente por existir no mundo – era porque a gente se sente, mesmo, muito sozinho em um mundo onde ninguém parece entender do que estamos falando. Eu não conseguia colocar na minha cabeça que eu e meu primeiro amor estávamos juntos, mas usando réguas diferentes, consultando dicionários diferentes quando íamos conversar.

Podemos sim achar pessoas que têm vários verbetes parecidos com os que criamos. Melhor que isso, podemos sempre mudar os nossos: revisar, deletar, reescrever. Revisar, deletar, reescrever. Mas precisamos estar dispostos a apagar um pouquinho do que fomos para ter espaço disponível para quem queremos ser.

Podemos ajudar os outros a revisarem os verbetes deles também. E é assim pro resto da vida, mas a gente não precisa (e nem vai) encontrar alguém que usa o mesmo dicionário que o nosso, a mesmíssima régua. Somos diferentes, com passados diferentes.

O que precisa vir antes é mais importante que tudo isso: o simples entendimento de que cada um tem seus próprios conceitos já ajuda muito. O que aprendi, dos amores não correspondidos da adolescência pra cá, é que forçar que o outro entenda o mundo do jeito que você entende é caminhar em direção à parede, é se relacionar apenas com você mesmo.

Mas também aprendi que se queremos estar juntos, precisamos nos ouvir sem preconceitos, sem imposições. Por que a gente acha que a nossa ideia de amor é melhor, mais completa ou mais verdade que a ideia do outro?

Muitas vezes é impossível dialogar: eu não vou me convencer nunca, por exemplo, que violência física é prova de amor. Mas algumas outras vezes não é tão impossível assim conversar.

E muitas vezes existe espaço para reescrevermos juntos um verbete que seja só nosso.

Mas os dois precisam querer.

Anúncios

Um comentário em “O dicionário de cada um

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s