O pop tem razão: “Chained to the Rhythm”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?” Essa é uma questão de ‘Alta Fidelidade’, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem algum sentido pra mim.

Tem dias que a nova música da Katy Perry não sai da minha cabeça. Composta por ela, Sia e Max Martin (entre outros), “Chained to the Rhythm” é um dancehall com a melhor letra que já ouvi essa guria cantar.

Depois da vitória de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, foi a vez deles perceberem em larga escala o que já tínhamos sentido no Brasil durante os papos sobre o impeachment de Dilma: todos nós vivemos em bolhas sociais, convivendo apenas com quem tem opiniões iguais às nossas, e os algoritmos das redes sociais e dos mecanismo de busca ajudam muito nessa sensação.

Perry canta sobre isso. “Tão confortáveis, vivemos em uma bolha. Tão confortáveis, não vemos os problemas. Não é solitário aí na sua utopia onde nada nunca será o suficiente?”, diz. “Então coloque seus óculos rosas e continue a festa”, canta ela, o que para mim é um jeito de apontar para esse comportamento que menciono. É fácil ignorar o que há de errado e continuar se divertindo no nosso mundinho.

“Aumente o volume, é a sua música favorita. Dance ao som da distorção. Aumente o volume e repita a música, tropeçando como um zumbi bêbado”. Gosto desse trecho por conta das frases no imperativo, que são as mais usadas na publicidade. Ela continua: “É, nós achamos que somos livres. Beba, esse é por minha conta. Estamos todos algemados ao ritmo. Vamos continuar varrendo tudo para debaixo do tapete”. Aumente, dance, repita, beba; compre, experimente, clique.

Nada me faz mais feliz nessa vida que música pop com conteúdo. Já mencionei antes aqui que é por isso que gosto tanto do que Sia (que inclusive escreveu essa música com Katy Perry), Robyn, Madonna e Alanis Morissette têm a dizer. Sinto que quase tudo que elas cantam tem uma camada mais profunda a ser explorada e acho que combina muito uma batidinha animada com uma letra pesada – mas não é que eu não veja valor nos artistas que são declaradamente apenas “entertainers”; o que eles fazem pode não ser sofisticado do ponto de vista artístico, mas ouvir uma música leve ou ver um show colorido que te faça esquecer um pouquinho do seu dia a dia cansativo também tem seu valor.

postmanVoltando para a letra de “Chained to the Rhythm”, queria falar um pouco sobre a visão de futuro de “1984”, livro de George Orwell, e de “Admirável Mundo Novo”, do Huxley, que é a minha favorita por achar a mais coerente.

Como bem observou o teórico de comunicação Neil Postman no livro “Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business”, Orwell temia censura, temia que livros fossem proibidos. Já Huxley temia que nem haveria necessidade de censura por conta da falta de interesse por obras literárias críticas, devido à supervalorização do entretenimento. Orwell temia também censura de informações, enquanto Huxley profetizou um futuro com um excesso tão grande de informações que cada indivíduo escolheria as suas verdades e viveria dentro de um mundinho de passividade e egolatria, onde os fatos seriam afogados em um mar de irrelevâncias menores que ganhariam muita importância. E, finalmente, o ponto mais significativo para a análise dessa música pop aparentemente tão inocente: em “1984”, as pessoas são controladas pela dor, em “Admirável Mundo Novo”, elas são controladas pelo prazer – e eventualmente arruinadas exatamente por tudo aquilo que achavam amar.

Essa comparação entre o que esses visionários acreditavam que seria o futuro é muito interessante para mim. Katy Perry fazendo uma crítica à sociedade de consumo e às redes sociais é como se um ditador autoritário fizesse um discurso defendendo a liberdade de expressão. A própria cantora faz parte de toda essa engrenagem: direta ou indiretamente, ela é a garota propaganda de inúmeros produtos, de um lifestyle almejado por muitos, e seus fãs saem no tapa com fãs de outras cantoras em brigas sobre clipes e vendas e premiações, como se algum desses itens os afetassem em nível pessoal.

Como é fácil observar, qualquer movimento de contra-cultura pode ser facilmente absorvido pelo mundo capitalista que ele critica se tiver um jeito de ele gerar lucro. É só prestar atenção no número de projetos com nudez atualmente, de pessoas com tatuagens nas ruas e nos países onde maconha está sendo legalizada. Sob esse aspecto, Perry não faz nada além de dançar conforme a dança: estão todos sendo políticos e criticando a sociedade/o governo? Então também vou!

Mas talvez a força dessa música – e dessa fase que a carreira dela parece estar prestes a entrar – esteja exatamente nisso. Perry praticamente canta um desses textões de Facebook onde o interlocutor aponta vários problemas que ele percebeu em casa, na rua ou no trabalho, mas termina com um “vida que segue”, sem apresentar nenhuma solução real à adversidade apresentada. A metalinguagem da canção é que mesmo esse discurso de “precisamos fazer algo/não vou fazer nada ativamente” faz parte do sistema – e, de certa forma, o mantém intacto. Afinal de contas, ser contra um movimento é ainda fazer parte dele, como disse certa vez o artista Pablo Picasso.

Apesar de tudo isso, que pode ser chamado de hipocrisia ou oportunismo, acredito no valor dessa música. Em comparação ao cenário pop atual, ela é menos óbvia musicalmente, tem uma letra interessante e menos egocêntrica que as das cantoras “concorrentes”. Talvez tudo isso passe batido por alguns dos fãs, mas se ela ajudar alguns deles a abrirem os olhos, ela já fez mais do que quase todos os hits no topo das paradas atualmente.


(meoooo, isso é muito black mirror)

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2 comentários em “O pop tem razão: “Chained to the Rhythm”

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