O pop tem razão: “Liability”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?” Essa é uma questão de ‘Alta Fidelidade’, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem algum sentido pra mim.

Pode apenas ser meu momento de vida, mas a música nova da Lorde me pegou de jeito. Gosto do que essa menina faz: a maior parte do som dela, na minha opinião, se equilibra bem entre ser comercial e ser pessoal, um feito que não muitos artistas atuais conseguem – alguns nem tentam.

A música em questão é “Liability” (composta por Yelich-O’Connor, de 16 anos!), palavra em inglês que significa responsabilidade, dependência, deficiência. Em outras palavras, um fardo. E ela usa o termo para se descrever nos relacionamentos. A canção começa com ela narrando o fim de um deles, e sugerindo que isso é bem comum: “Meu amor realmente me magoou, chorando no táxi, ele não quer me conhecer. Disse que cometeu o grande erro de dançar na minha chuva. Diz que ela é um veneno”.

A música segue: “Então, acho que vou para casa, para os braços da garota que eu amo, o único amor que eu não arruinei. Ela é difícil de agradar, mas ela é uma fogueira na floresta. Eu faço o meu melhor para agradá-la. Sou romântica, danço devagar na sala de estar. Mas tudo que uma pessoa de fora vai ver é uma menina balançando sozinha, acariciando a própria bochecha”.

Nesse trecho ela conta como, depois desse término, ela voltou para os braços da única pessoa com a qual ela se deu bem: ela mesma. E conta como esses relacionamentos que vem e vão fazem parte de um plano particular para que ela melhore a própria vida, sempre se colocando metas e impondo condições para novos amores que queiram entrar na sua rotina, como por exemplo ser romântica (ao invés de ser prática ou promíscua), mas mesmo assim ela acaba sozinha.

Um outro jeito de interpretar essa parte é que ela pode estar criticando as outras metades dessas relações que acabam: de fora, a gente vê ela dançando sozinha pois o cara que está com ela não se jogou no relacionamento – e a ilusão de estar numa relação faz com que ela acaricie a própria bochecha, achando que tem um outro alguém ali. No final, na verdade, ela nunca esteve (bem) acompanhada.

Gosto dessa metáfora da fogueira na floresta: é assim que toda pessoa incompreendida se sente; uma chama no meio das árvores que pode aquecer um acampamento ou ser o começo de um incêndio incontrolável. E a quantidade e o tipo de lenha que se coloca nessa fogueira é o que decide esse destino.

E então ela chega no refrão: “Eles dizem: ‘você é um pouco demais para mim, você é um fardo’. E então eles dão um passo para trás, fazem outros planos e eu entendo [o lado deles], pois eu sou um fardo. Te deixo louco, te faço ir embora, sou um pouco demais para todo mundo”. Essa parte é especialmente triste e foi a parte que mais me deixou para baixo quando ouvi a música pela primeira vez.

Eu já cansei de ouvir coisas parecidas em relacionamentos. Ser independente, saber o que quero e não me deixar cair em manipulações mentais sempre me faz ser rotulado como “difícil”, que é só um jeito diferente de ser chamado de “maluco” ou, simplesmente, “chato”. Aquele famoso jeito de invalidar os sentimentos de uma pessoa porque eles fazem você se sentir desconfortável, por eles te fazerem pensar em coisas que você não quer pensar – sobre você, sobre o relacionamento, sobre o jeito que você trata o outro, sobre o amor, sobre o mundo, sobre a vida.

“A verdade é que eu sou um brinquedo com o qual as pessoas se divertem até que os truques não funcionam mais e eles se entediam comigo”, continua a letra. “Eu sei que é excitante correr pela noite, mas cada verão perfeito me devora viva até que você vai embora. Estou melhor sozinha”. Essa conclusão é poderosa pois traz uma luz diferente ao refrão: se Lorde conclui que está melhor sozinha, ser um fardo é menos doloroso do que parece. É como se ela estivesse dizendo que não, ela não é um fardo em si, ela é um fardo para quem não consegue compreendê-la e/ou valorizá-la. Por isso, é melhor mesmo abrir mão dessas pessoas.

Acredito que é por isso que ela, no refrão, repete quando o outro fala que ela “é um pouco demais” e concorda com facilidade sobre ser “liability”; se o outro te considera uma dessas coisas, então você é uma dessas coisas para esse outro. E queremos do nosso lado alguém que não nos enxergue dessa maneira. Quem nos considera um fardo merece nossa companhia, nossas histórias, nossos carinhos?

E, na minha interpretação, ela volta à metáfora da fogueira na floresta ao fim da música. Depois de repetir o refrão mais uma vez, ela termina a canção falando que “eles vão me assistir desaparecer sob o sol”, sugerindo também que, enquanto passa por pessoas que não conseguem valorizá-la pelo que ela é, ela vai perdendo sua essência, seu brilho e seu calor. Quando o sol sair, aquela fogueira – com potencial de aquecer e incendiar – vai ter minguado e estará apagada, sendo apenas cinzas.

Toda essa minha interpretação não faz com que a música soe menos triste aos meus ouvidos. Mas ela é mais positiva do que pode parecer nas primeiras ouvidas. Não chega a acalentar, mas me dá vontade de abraçar a cantora, falar que eu já passei – e, infelizmente, ainda vou passar de novo – por tudo isso. Mas que vai ficar tudo bem.

E, principalmente, me fez pensar: que lenha eu estou botando (ou deixando botarem) na minha fogueira? E que lenha estou colocando na dos outros?

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