Tirem o amor fora disso

É muito complicado falar de homossexualidade no Brasil, um país recheado de preconceito e ódio. Sabia que a cada hora, um gay sofre violência no país? O número de denúncias cresceu 460% desde 2011 (fonte).

Mas o que é um crime homofóbico? É o crime que aconteceu por causa da homossexualidade de uma pessoa. Veja bem: se um cara reage a um assalto e leva um tiro e acontece de ele ser gay, isso não é um crime de homofobia. Tem muita gente que ainda se confunde – ou finge se confundir. O crime de homofobia é quando o gay leva o tiro por ser gay. É quando o cara ser gay é o motivo da bala, da pedrada, do soco, do chute, da lâmpada na cara. Como se fosse uma punição. Sempre argumentam: “ah, mas morre muito mais hetero que gay no mundo”, só que essa é a diferença. Nenhum hetero é assassinado por ser hetero; ser hetero não é a motivação real de nenhum crime. Ser gay sim.

Ainda estamos engatinhando – e muito lentamente – para a aceitação por aqui. Tem gay na novela e nas paradas musicais de sucesso e é ótimo isso – mas continuamos sendo zoados na escola, apanhando dos nossos pais, sendo expulsos de casa, sendo demitidos sem justa causa, sendo assassinados. Por isso, é muito cedo para problematizar uma certa “heteronormatização” que percebo sempre vir com essa aceitação. Mas do lado de cá, acho que precisamos falar sobre isso.

É o seguinte: você já deve ter reparado por aí que todos os discursos de apoio à causa, seja ele vindo dos parentes que dizem aceitar ou das marcas de perfume de olho no nosso dinheiro, dizem que pode sim ser gay, que você pode AMAR quem você quiser, que o amor é lindo – e taca lá selinho de “Love Wins” no avatar da galera no Facebook.

E é sobre isso mesmo que queria falar: amor. Aceitação de uma minoria e garantia de direito civis básicos precisam ter a ver com amor? Só devemos respeitar uma orientação sexual “diferente” se a pessoa ama? Só vale ser legal com quem tem relacionamentos estáveis, parceiros amorosos, ou filhos? Quer dizer, se você não ama alguém, tudo bem levar um tiro na cara?

Me incomoda um pouco essa sensação de que para termos direito e voz temos que “imitar” os heteros. Casar, ter relacionamentos longos, monogâmicos, ter filhos, formarmos família, passearmos com nossos cachorros magrelos ao redor do quarteirão. Eu não tenho nada contra essas coisas e se esse é o desejo genuíno da pessoa, eu realmente fico muito feliz de ela ter conseguido alcançá-lo. O que me irrita é isso ser usado como condição de respeito. Se você é um gay que faz isso, aí sim você “merece” ser respeitado? Não pode ser assim.

Queremos respeito sem essa necessidade de romantizar a homossexualidade para que ela seja palatável para a sociedade heterossexual. A gente quer respeito pra todo gay (na verdade, pra todo mundo da comunidade LGBT+) quando essa pessoa estiver sem amar ninguém também – do mesmo jeito que um hetero que está sem amar ninguém é respeitado no condomínio que ele mora, no trabalho dele, andando na rua.

Como disse, não me entendam mal, o amor é lindo, mas ele não pode ser a pauta. A gente quer respeito sem esse tipo de condição. A pauta é política – não sentimental.

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