Silêncio como estratégia de marketing

Com a entrevista de Manuela D’Ávila no “Roda Vida”, da TV Cultura, minhas redes ficaram enfurecidas. Ela foi interrompida sem parar e as respostas que conseguia dar não eram levadas à sério, o  time montado para entrevistá-la mais parecia ter vontade de atacá-la que qualquer outra coisa.

O episódio fez com que muitos pensassem que esse era o motivo de Jair Bolsonaro não ter topado ser entrevistado pelo programa. Que ele não sobreviveria. Mas provavelmente essa era a estratégia dele mesmo.

O “mito” que foi construído em cima dele não foi sobre seus feitos políticos, mas sim sobre sua personalidade. Ser colocado contra a parede iria mais prejudicar que ajudar a sua campanha. Acredito que a estratégia dele será ficar calado até o final ou que, durante esse tempinho quieto, ele está sendo muito bem treinado para sair do casulo com falas muito bem ensaiadas. Não faz sentido ele ter feito tanto barulho antes e, agora, que era hora de ele estar fazendo mais barulho ainda, ele ficar calado.

[Edit: esse texto foi escrito antes de Bolsonaro ter, enfim, topado ir ao Roda Viva. Entretanto, hoje, dia 23/08/18, saiu a notícia que ele não participará de mais nenhum debate presidencial]

É uma estratégia: nos momentos de silêncio, você aproveita para contabilizar a impressão que você deixou. O que estão falando de você, o que acreditam que você vai fazer e, só aí, você aparece – tendo absorvido todo esse feedback gratuito e se repaginado de acordo com as demandas. Beyoncé faz algo parecido há anos.

Obviamente não estou comparando Beyoncé com Bolsonaro, bom deixar claro. Eles têm cabeças bem diferentes e trabalhos que não preciso nem comparar. Mas eles são bons personagens para exemplificar o silêncio como estratégia de marketing e de (re)lançamento.

A cantora posta muito no Instagram, por exemplo. E, no começo de sua presença na rede social, ganhou seguidores com a estratégia de postar por lá os looks que ia usar em shows e tapetes vermelhos, antes que veículos de mídia a fotografassem. As fotos são sempre bem posadas, tratadas no Photoshop, todas sem legenda, o perfil não segue nenhuma outra conta – nem o perfil do próprio marido – e não tem nenhum textinho de descrição.

Deixando o fanatismos de lado, Michael Jackson era a pessoa que mais trabalhava a ideia de que ele era o Rei do Pop, apesar de sua importância e suas vendas terem caído ao longo de sua carreira, andando ao lado de suas excentricidades. Beyoncé faz a mesma coisa, mas ao contrário: o silêncio não é exclusivamente para prestarmos atenção nas músicas – como argumentam alguns fãs – mas faz parte de uma boa estratégia para a manutenção da imagem imaculada de diva que ela se propõe e quer manter para os fãs – que ao mesmo tempo que a celebram, também demandam essa manutenção isso dela.

Ela nunca vai ser mal interpretada se tudo que ela expressa – no caso, através da música e dos clipes – é pensado com muita antecedência e por várias pessoas; ela nunca vai dar uma bola fora ou se contradizer em uma entrevista se ela não der entrevista alguma. Essa falta de deslize ajuda a construir o mito. Foram os deslizes, digamos assim, que fizeram a coroa de Michael Jackson ruir quando ele ainda estava vivo.

Parece inovador, mas não é uma novidade.

Em 2014, a rede de fast-food Taco Bell lançou seu próprio aplicativo de delivery e, na mesma semana, fechou suas redes sociais, parando de postar em todas elas desde então. As redes já voltaram a ser atualizadas, mas o golpe publicitário foi perfeito: se você quer nos conhecer, nos conheça experimentando nossos produtos – e não ouvindo nossas propagandas sobre eles.

O Snapchat tinha uma estratégia similar um tempo atrás: quando o aplicativo estava no auge de crescimento, seu Facebook tinham apenas as notícias antigas sobre o lançamento da start-up, mais nada. Em contrapartida, o Twitter era muito ativo, mas sem nenhum post institucional.

Ao invés de tweetar sobre o lançamento de um filtro ou algum conteúdo especial, a conta do Snapchat buscava por pessoas que já tinham tweetado à respeito das novidades de forma orgânica e, aí, simplesmente dava RT. A estratégia deixava claro que a experiência do aplicativo acontecia apenas dentro dele, em nenhum outro lugar.

Isso tudo tem um nome: marketing silencioso. Em 2012, essa era a tendência que o futuro nos reservava, lembra?

Primeiro você tem que fazer perguntas e ouvir em silêncio o seu mercado-alvo (sejam eles clientes, fãs ou eleitores) para descobrir o que eles querem. E então oferecer exatamente isso a eles, do jeitinho que eles querem consumir. Não é coincidência que o empoderamento feminista negro das Beyoncés e a homofobia conservadora machista militarista dos Bolsonaros aconteçam ao mesmo tempo. São demandas de mercado da nossa sociedade de consumo, também polarizada. Quando você lança no mercado um produto que vende, você insiste nele. Se não vende, você passa para o próximo.

Outro ponto importante é fazer marketing por nicho, micro-targeting, de um jeito que passe quase despercebido. A gente acha que um candidato ou uma marca estão sumidos, mas será que estão mesmo? Eles podem estar falando, nesse minuto, com milhares de pessoas, mas fora da sua bolha, abaixo do seu radar. Geralmente antes de você ver o outdoor, já tinha um monte de gente no Instagram usando o produto, mas você não seguia nenhuma das pessoas escolhidas. Você só recebeu a informação quando chegou no outdoor, quando chegou para as massas. É igual.

Na publicidade, sabemos que gritar com o consumidor não funciona mais. Ele quer mais do que isso, mas ainda tem muita marca e agência insistindo em gritar mais alto que o concorrente ao invés de criar um jeito diferente de falar sobre si. Ouvir é um bom primeiro passo nesse sentido: antes de lançar uma propaganda (ou um disco ou uma campanha eleitoral), o que estão falando de você? Com isso em mãos, você se programa melhor para enfatizar aquilo que estão falando mais e falando bem e evitar repetir aquilo que estão falando menos ou mal.

Funciona. É assim que marcas, autores, políticos, diretores e artistas “sempre acertam” e se tornam lendas, mitos, divas, best-sellers.

Fãs e eleitores odeiam ser vendidos, mas gostam muito de comprar – eles são, acima de tudo, consumidores, seja de produtos, discursos ou ideias. Com empatia e algum tipo de vínculo emocional, você basicamente consegue vender o que quiser para quem quiser.

É como dizem: se o coração quer comprar, a cabeça vai junto.

 

Eu vi as suas fotos pelado no celular dele

– Então é você?!

Ela gritou com uma voz rouca, fazendo um pequeno escândalo na porta do prédio, em direção a ele.

– Eu o quê?

Ele respondeu assustado, com uma certa dúvida se aquela mulher estava falando mesmo com ele. Dava para ver, pelos olhos esbugalhados e fixos nele, que ela estava com seu estado emocional abalado.

– O cara que chupa o pau do Jorge!

Ela gritou alto de novo, agora já chamando atenção das pessoas passando na rua e o deixando extremamente desconfortável, imóvel no caminho que tranquilamente estava fazendo para dentro do prédio em que morava.

– Jorge?

Disse baixo, tentando lembrar de quem se tratava. Ainda não tinha certeza se aquela gritaria era com ele mesmo. Mas ela o ouviu cochichando o nome que tinha dito, então repetiu mais alto, esclarecendo:

– Jorge, o meu marido! Eu li as mensagens que vocês trocaram no celular!

– Ah – ele disse com calma -, um moreno?

– É – ela disse ainda gritando, como se não acreditasse que ele não se recordava quem era -, eu vi as suas fotos pelado no celular dele, seu ridículo!

– Ok, calma, querida.

Ele lembrou do Jorge: um cara que ele conversou em um aplicativo de pegação no final de semana. Eles trocaram algumas fotos mesmo, mas apenas as fotos que ele já tinha dentro do próprio aplicativo, as mesmas que ele mandava pra todo mundo que conversava: uma de rosto, a mesma que usava no perfil do Facebook, uma foto dele em uma festa, e duas fotos dele só de sunga, tiradas numa viagem à praia.

Eles conversaram na madrugada de sexta para sábado da semana passada e combinaram de encontrar para fazer sexo casual. E foi isso que fizeram. Não foi impessoal, mas também não foi especialmente íntimo. Aquele sexo entre dois estranhos com tesão um no corpo do outro, para aliviar a tensão da semana de trabalho. Os dois se chuparam mesmo, os dois transaram sim, os dois gozaram.

Durante esses curtos segundos, ele percebeu a confusão que tinha entrado: Jorge claramente não tinha essa parte da sua sexualidade aberta dentro de casa. Entretanto, era claro que não era novato na coisa: o sexo foi bom e eficiente, ele se preocupou em usar camisinha e tinha até trazido poppers no bolso.

Depois, Jorge foi ao banheiro urinar, vestiu de volta sua roupa e foi embora, logo depois de dar um último gole no copo d’água que tinha pedido assim que chegou no apartamento.

Ontem, ele mandou uma nova mensagem pro Jorge, um simples “oi, quer repetir qualquer dia desses?” e Jorge não respondeu, apesar de estar online na hora. Provavelmente não era ele online, e sim essa mulher, lendo todas as mensagens que foram trocadas – em uma delas, tinha o endereço dele, provavelmente foi assim que ela tinha chegado ali, em sua porta.

– Vem cá – ele disse calmo para ela, abrindo a porta do prédio, já entreaberta, e apontando para os bancos que ficavam na entrada de seu condomínio – senta aqui.

Ela se sentou, ainda exaltada, falando mais baixo, mas ainda de forma aparentemente desorientada:

– Eu num quero nem saber o que…

Ele a interrompe:

– Olha pra mim. Olha pra mim.

Ele estava calmo e ela começou a ficar também. Olhou pra ele inteiro. Suas pernas dobradas com calças jeans, a canela aparecendo e seu sapatênis azul marinho. Sua blusa listrada de mangas longas e seus dedos finos e limpos apoiados nos própios joelhos.

– Se eu soubesse que ele era casado, você acha que eu teria feito isso? Eu não sabia que ele era casado…

Ela falou algo por cima dele, mas ele continuou falando.

– Eu tô com o Jorge tem [inaudível] anos!

– …Mas você sabe quem sabia que ele era casado, né?

Os dois ficaram em silêncio durante o que pareceu uma eternidade. Ela sabia o que ele ia dizer:

– Ele. Ele sabia.

Ela continuou com a mesma cara de exaltada, de quem está prestes a abrir um berreiro, mas ficou em silêncio, e sua respiração estava finalmente normalizando.

– Então, assim: eu vou deixar você falar tudo que você quiser falar comigo, mas antes eu queria te dizer apenas isso. Ele sabia que ele era casado. O que eu fiz não foi uma falta de respeito com você, intencionalmente. Mas o que ele fez é que foi. E alguém assim merece isso?

Os dois ficaram em silêncio. Ela estava sem palavras, então ele continuou:

– Ele merece você aqui, exaltada, tirando satisfação comigo? Eu não tenho nada a ver com essa história. O que ele fez comigo, podia ter feito com qualquer outro cara, qualquer outra mulher, talvez até tenha feito antes. O que importa é o que isso significa pra vocês, o que ele fez com você, tendo feito isso comigo. Entende? Eu não te conheço, e pra ser sincero, eu não conheço ele também, então não tô no lugar de dar conselho algum aqui. Mas se eu fosse você, ia lá falar com ele.

Ela colocou as duas mãos no rosto, como se fosse chorar e não quisesse que ninguém visse. Suspirou alto e resmungou de debaixo das próprias mãos.

– Falar o quê?

– Não sei… Sinceramente, não sei. Não sei se ele é gay e finge que é hétero ou se ele é um hétero que gosta de aventuras… Mas conversando comigo você não vai saber. É só conversando com ele que você vai entender como ele pensa, o que ele gosta, o motivo de ele esconder isso de você, e aí decidir se vale à pena, sabe? E decidir o que vale à pena, tipo, que concessões vocês estão dispostos a fazer um pelo outro… Sei lá. Não sei mais o que estou dizendo. Desculpa.

– Desculpa.

Ele sorriu pra ela, sem mostrar os dentes, que respondeu pra ele:

– Jorge é um filho da puta.

Ele seguia sorrindo de leve.

Eles trocaram um leve e impessoal abraço, de cumplicidade ou empatia.

Ela foi embora.

O perfil de Jorge sumiu do aplicativo.

Autocontrole é ter empatia por você mesmo

Dias desses um conhecido anunciou que estava mudando de cidade e quando questionei o motivo ele disse que gastava dinheiro demais em São Paulo, pois tinha muita festa todo final de semana. “Ué, você não pode continuar aqui e simplesmente não ir em tanta festa assim?”, perguntei, e ele respondeu de forma evasiva: “Essa é a sua opinião”. Não entendi nada. Não era minha opinião, eram as escolhes dele, escolhas que ele têm controle de fazer.

***

Com certeza você já viu por aí o que é conhecido como o Teste do Marshmallow: crianças de várias idades são colocadas sozinhas em um cômodo com um doce e são instruídas a não comer o tal. Se resistirem por um tempo determinado, poderão comer muitos marshmallows mais tarde. Esse teste é feito desde os anos 1960 e é um exercício de autocontrole interessante de assistir: algumas crianças resistem à tentação, focando na recompensa maior que receberão no futuro. Outras crianças não aguentam e preferem comer o doce imediatamente, mesmo que seja apenas um docinho só.

Mas esse exercício tão bobinho (e até engraçado de assistir) guarda uma metáfora poderosa sobre nosso comportamento como humanos: o tempo inteiro precisamos escolher entre o agora e o futuro – independente da quantidade de doce, independente da nossa idade, independente de estarmos sendo observados ou não. O clichê existencial é que “o futuro a Deus pertence” e “o que importa é o hoje, não o ontem nem o amanhã”, mas não é bem assim. Especialmente se você pensar que autocontrole é um jeito de ter empatia por você mesmo.

E veja só: recentemente, a Universidade de Zurique divulgou um estudo muito interessante que mostra que a área do cérebro que cuida do autocontrole é a mesma que cuida de empatia e altruísmo.

Faz sentido, não é? Empatia é a sua capacidade de superar a sua própria perspectiva de vida ou sobre um assunto, apreciar o ponto de vista do outro, se colocar no lugar dele. O autocontrole é basicamente a mesma coisa, mas é a habilidade de se colocar no lugar que você mesmo vai ocupar no futuro; ao invés de ser um cuidado com uma pessoa diferente, é com você mesmo.

Autocontrole pode funcionar como um altruísmo temporal consigo mesmo na maioria das vezes. Pensar a longo prazo é racionalizar (alguma) restrição em nome de um objetivo maior. É aguentar mais um pouquinho um emprego chato para só pedir demissão no caso de uma oportunidade bem melhor. É não comer sobremesa todo dia para conseguir perder os quilinhos que você quer se livrar. É não comprar aquele tênis para pode guardar dinheiro para uma viagem. É dividir uma tarefa ao longo da semana ao invés de ficar com a semana livre e ter que fazer com pressa. É aguentar o longo e chato processo burocrático em troca de alugar o apartamento que você quer morar. E por aí vai.

Um dia, reclamando de uma ressaca, um amigo disse: “beber é pegar emprestada a felicidade do dia seguinte”. Acho esse um exemplo que cabe muito bem aqui. Impulsividade e egoísmo são duas metades da mesma moeda, enquanto seus opostos, restrição e empatia, são metades de uma moeda diferente. Para usar o exemplo do meu amigo, autocontrole pode ser o simples fato de não exagerar na bebida hoje em nome de algum compromisso que você vai ter no dia seguinte e você não quer perder.

O que você está fazendo de legal hoje é tão legal a ponto de sacrificar as coisas legais que você iria (ou gostaria de) fazer amanhã? Quando você perder os compromissos de amanhã, vai achar que valeu à pena ou vai se arrepender? É meio que assim que eu tenho tentado pensar ultimamente. Fez muita diferença no meu dia a dia enxergar que ser impulsivo pode ser um jeito de ser egoísta comigo mesmo – e não o contrário, como eu achava.

Essas características são as sementes dos nossos sucessos e fracassos quando o assunto é sair das nossas próprias bolhas egocêntricas, à caminho de compreender as vidas dos outros – mesmo quando esses outros somos nós mesmos, no futuro. Muitas vezes é preciso parar e respirar antes de continuar uma caminhada e apreciar a vista é tão importante quanto chegar no topo. Sim, basear sua vida inteira em planos para o futuro é uma perda de tempo, mas viver apenas no presente também pode ser muito limitador.

Em resumo, viver é tentar equilibrar isso tudo de forma que a gente caminhe de acordo com nossos objetivos verdadeiros, com nossas maiores vontades na vida. Quais são as suas? Você quer um docinho hoje ou um saco de doces amanhã?

(Leia também: Onde você quer acordar?)

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(baseado no texto do The Atlantic)

Aquele grupinho de gays bem sucedidos (não) é uma farsa

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Uma vez eu escrevi sobre “sucesso” ser a palavra mais vazia que existe. O que é sucesso para um, não é para os demais. A gente compara os momentos de holofote dos outros com nossos momentos de bastidores e isso cria uma confusão mental imensa, pelo menos em mim.

Como será que tal pessoa é tão bonita e rica e namora com esse partidão e tem esse emprego incrível, e eu aqui feio e pobre e sozinho num empreguinho? A questão é que é isso que as pessoas projetam. E é normal, todo mundo quer mostrar pros outros só o que têm de melhor, ou pelo menos o lado bom daquilo que têm. Não é público o tanto de produto que a pessoa passa pra ficar com aquele cabelo, se ela fez uma plástica, as comidas gostosas que deixou de comer pra se manter na dieta, a dívida que fez depois de comprar aquelas roupas incríveis da marca foda, o que ela deixou de fazer pra poder conseguir viajar para aquele lugar, nem que o namoro está por um fio ou que o relacionamento é de fachada.

Vou tentar contar aqui uma história que é real (muito real) mas não quero, de maneira alguma, expôr as pessoas envolvidas, então vou mudar algumas coisas, mas basicamente foi assim:

Minha auto estima não é das melhores. Sou de fases. Uns dias me sinto o cara mais legal do mundo, outros eu não quero nem levantar da cama. Paralelo a isso, sempre tive problemas para me encaixar em coletivos. Tenho amigos maravilhosos, mas todos funcionam na minha vida quase que individualmente. Eu não tenho aquele grupinho de amigos inseparáveis que faz tudo junto. Parte por ter tido uma adolescência complicada, com minha homossexualidade escondida e o medo de ser exposto. A outra parte tem mais a ver com uma (eterna, pelo visto) dificuldade de encontrar um meio termo entre as atividades que parecem ser mais, digamos, populares entre os gays no meu círculo de amizade: cuido demais da minha saúde pra beber pra caralho, ir pra balada e dormir pouco todos os dias – e meu trabalho nem me permitiria isso -, mas também não cuido o suficiente pra ter uma turminha que sai pra pedalar ou fazer, sei lá, mahamudra no Parque Ibirapuera sábado de manhã. Meu meio termo é Netflix e livros, o que posso fazer sozinho – e acabo fazendo sozinho mesmo. Talvez isso até explique o motivo de eu sempre estar querendo namorar – é carência de companhia, não necessariamente de sentimentos.

Enfim, divaguei. Mas é pra explicar que essa falta de grupinho me deixa incomodado. Sempre sinto que eu devia ter um, que se eu tivesse minha vida seria não apenas diferente, e sim melhor. Mas as poucas tentativas de fazer parte de um grupo já existente foram pra lá de frustradas. Sentia dificuldade em acompanhar o ritmo de novidades, de coisas que me fariam sentir que faço parte: as bandas, as divas pops, as roupas, os looks, os conceitos, as discussões, a rotina, as fofocas e até mesmo a tolerância alcóolica deles nem sempre fazem eco às minhas. Eu tenho meu gosto e meu ritmo para as coisas, para descobrir, gostar e conquistar – sinto que estou velho demais para viver dentro de um episódio eterno de “Skins”, mas sei que sou novo demais para viver dentro de “Golden Girls” também. Talvez seja apenas o caso de não ter achado “a minha” turma – mas se começar a falar disso vou divagar de novo.

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Sou um jovem gay em São Paulo e, como não sou nada discreto e fora do meio, acabo fazendo contato com vários grupos. Um amigo aqui, outro ali, prazer, tudo bom? Conheço MUITA gente legal e alguns grupos de amigos que me dão essa sensação (gostosa e horrível) de “puxa, queria estar ali”. Mas basta conviver um pouquinho e bate aquele sentimento de não-pertencimento: se é pra achar um grupo de amigos, eu devia ficar confortável com eles, certo? Mas nunca parece ser o caso. Me sinto vigiado, tanto por eles quanto por mim mesmo. Observado. Não quero cometer deslizes. É divertido no começo, mas é exaustivo no final e eu acabo me fechando. Não é esse aqui o meu grupo, então aí saio. Aliás, na maioria das vezes, mal entro: essa distância faz com que eu nem seja considerado para vários convites, eventos, festas, jantares etc. E vira um ciclo sem fim de não-ser-convidado, não-ser-visto e não-ser-convidado-por-não-ter-sido-visto.

Às vezes isso me dá vontade de chorar (pois acho que essa sensação eterna de não-pertencimento pode ser a raiz de um monte de problemas sociais que eu tenho – e que ninguém vai ter paciência, nunca, de olhar com cuidado pra mim ou me ouvir de verdade). Mas às vezes isso me dá vontade de dar graças aos céus (pois por mais que eu admire certos grupos e pessoas, tenho um medo de rejeição tão grande que acho que o preço para descobrir pode ser muito alto).

Mas c’est la vie. Vida que segue.

Por uma enorme coincidência, conheci uma menina dia desses, de uma família bem rica, dona de alguns imóveis na cidade. Em um dos imóveis morava um desses gays Alpha da noitezinha de São Paulo – quem vive aqui sabe como essas coisas são reais. Aquele carinha que onde você vai, mesmo que você não queira, tem alguém especulando sobre onde foi, o que fez, quem está pegando, se é relacionamento aberto ou não, onde passou férias, qual o novo emprego etc. E aí ela me contou algumas fofocas sobre aluguéis atrasados, brigas com vizinhos, mudanças de cidade, intervenção dos pais.

Por alguns segundos, confesso, abri um sorriso. Ufa, a vida dos outros não é tão perfeita, afinal de contas! Posso respirar melhor agora, a minha vida não é tão merda assim! O Fulaninho Perfeitinho Famosinho está pior que eu! Mas logo mudei de expressão. Primeiro por estar, aparentemente, feliz com a desgraça alheia – e essa é uma coisa que eu não posso apoiar. Segundo, pois, puxa, eu já devia saber disso, afinal. É só abrir meu próprio Instagram ou Snapchat: lá você não vê nada sobre minha enorme dívida no banco, sobre os dias que acordo me sentindo um lixo, sobre minhas sérias brigas com minha família. Isso tudo está embaixo do meu tapete e é óbvio que as outras pessoas estão fazendo a mesma coisa.

E aí pensei até em outra coisa: pra quê estou dando tanta importância para tudo isso? Como eu disse, o que é sucesso para um, não é para os demais. Eu não gostaria de voltar a morar com meus pais, mas vai que o Fulano gostou dessa mudança? Quem sou eu pra dizer que esses acontecimentos na vida do cara fazem da vida dele uma merda? O que eu preciso é mudar ainda mais o meu conceito de “sucesso”. Eu falo isso o tempo inteiro e mesmo assim ainda não aprendi, pelo visto.

O que funciona pra ele ali, não funciona pra mim. O que ele tá fazendo ali não é o que eu queria estar fazendo. A vida que ele leva não é a vida que eu quero. Mas e o contrário? Se eu também escondo o lado ruim da minha vida, será que tem alguém vendo ela de longe e achando que eu sou foda? Será que tem alguém que me acha bonito e, por isso, se acha menos bonito? Queria pode fazer algo à respeito, mas não é de propósito. Estamos cada um apenas vivendo nossas vidas, sem noção de como podemos estar afetando os outros. E esse também é (ou pode ser) o caso desses grupinhos todos, que me fazem sentir tantas coisas: claro, alguns por aí estão vivendo de desconexão, escravos do luxo ou da aparência do luxo, mas muitos estão simplesmente vivendo suas vidas e todas essas deduções sobre eles vieram de mim e apenas de mim.

Mas se eu sei que a gente compara os momentos de holofote dos outros com nossos momentos de bastidores, pra quê eu ainda faço essa comparação? Aliás, pra quê eu comparo tanto meus bastidores com meu holofote até hoje? Porra, por que, às vezes, ainda me sinto tão mal com o que eu sou e tenho?

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Foto: Instagram @gabrielkdt

É possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?

Hannah, da série “Girls” (HBO): “Eu não quero um namorado. Eu só quero alguém que queira ficar comigo o tempo todo, me ache a melhor pessoa do mundo e queira fazer sexo só comigo”

Se você abrir aí sua lista no Instagram, é bem provável que tenha um sem número de crushs, né? Várias pessoas interessantes (ou só bonitas mesmo) que você segue para ficar suspirando sempre que abre a timeline. Apesar de sabermos saber disso, muita gente tem dificuldade para dar um passinho a mais e experimentar uma relação a três ou um relacionamento aberto. Ou, menos que isso, temos até dificuldade em entender caso uma pessoa que estamos ficando, mesmo que de forma inconstante, fique com outras pessoas. Nos sentimos traídos até por gente que não tem compromisso com a gente. De onde vem essa insegurança toda?

Somos tão possessivos que inventamos o casamento. É uma coisa incrível: as pessoas estão sempre evoluindo, mudando de opinião e de gosto, mas apesar disso escolhem uma pessoa para passarem o resto da vida juntas – e oficializam essa escolha perante várias testemunhas e envolvendo leis e religiões. Elegem um alguém e acreditam que ele vai evoluir igual, pro mesmo lugar e no mesmo ritmo. Isso devia acontecer, não sei, 4 ou 5 vezes por ano no mundo. Mas acontece com uma frequência infinitamente maior que essa.

E qual o motivo disso? Essas pessoas estão realmente apaixonadas? Bom, de fora não tem como eu saber. O que eu sei é que uma boa parte delas só se casa por acreditar que precisa – não necessariamente por um desejo genuíno de fazê-lo.

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Ariel, a princesa Disney mais trouxa: deixou de ser sereia pra ir correr atrás de homem

Explico: somos seres de cultura. Tudo que somos e gostamos nos foi ensinado. Mas não formamos uma opinião sobre casamento, por exemplo, depois de ir a uma palestra. Formamos nossa opinião sobre o assunto ao longo do tempo, absorvendo o cenário em que somos colocados. A ideia do amor romântico nasce depois de sermos expostos a anos e anos de estímulo a ela, não apenas com o exemplo da relação dos nossos pais, mas também a filmes e livros e novelas em que o final feliz é estar acompanhado. Puxa, até os livros e desenhos infantis ensinam isso! Depois de nascer e crescer ouvindo que essa é a resposta, ninguém tem mais nenhuma dúvida.

E é simplesmente por isso que a ideia de gostar de mais de uma pessoa ao mesmo tempo assusta a maioria. A pressão para fazer uma escolha. A desconfiança de relacionamentos sérios que são abertos ou em trio ou em grupo. A vergonha de ter mais de um amor. A tal da insegurança de dividir a pessoa amada. Tudo um resultado de uma cultura que solidificou a opressão que as religiões trouxeram, cheias de regras e conceitos que não fazem parte do ser humano em estado, digamos, natural:

A liberdade sexual dos primeiros moradores do Brasil seria logo substituída pela noção de transgressão, pelo pudor excessivo, pelas proibições e pelo preconceito – a homofobia, por exemplo, nascia ali. Em que contribuíram os europeus para a sexualidade das Américas além de nos apresentar à culpa?

Tudo o que era possível trazer para cá, em termos sexuais, já era conhecido entre os nativos: homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, bigamia, poligamia (…), masturbação mútua, sexo anal, oral, grupal. Sexualmente falando, eram os indígenas os avançados e os homens brancos, os primitivos. Mas foi só chegar a igreja e pronto: a pretexto de civilizar-nos, destruíram milênios de conhecimento autóctone sobre a sexualidade.

As próprias narrativas dos primeiros cronistas são contaminadas pelo puritanismo da época. No México, Hernán Cortés escreveu: “fomos informados de que são todos sodomitas e usam aquele abominável pecado”. O tema da sexualidade, é claro, sofreu censura por parte dos colonizadores, e só recentemente historiadores e arqueólogos têm apresentado descobertas neste campo. Cortés estava bem informado: entre os maias, a homossexualidade era frequente, e uma espécie de rito de passagem da infância para a adolescência (como ocorre, aliás, com tantos homens e mulheres, de forma velada, em todos os tempos).

(…) Na América [do Norte] protestante, a repressão não foi diferente. Muito igualitária, a sociedade Cherokee dava às mulheres postos semelhantes aos dos homens; elas podiam integrar o conselho da tribo e ser guerreiras. O adultério era permitido a ambos os sexos, sem punição, assim como o divórcio: bastava a mulher colocar os pertences do homem para fora da casa.

Havia ainda os transgêneros, encontrados em mais de 150 tribos norte-americanas. Chamados de Two-Spirit (“dois espíritos”) ou “berdaches”, eram homens que gostavam de estar entre as mulheres, fazer as coisas que elas faziam e vestir-se como elas. Ou o contrário: mulheres que gostavam de se vestir como homens. Os primeiros relatos de colonizadores sobre os Two-Spirit aparecem já no século 16. O preconceito contra eles só vai surgir mais tarde, por influência do homem branco. A partir daí, eles passam a ser rejeitados por suas tribos e são marginalizados. (fonte)

Viu?

Interessante pensar nisso a longo prazo: tudo que a gente vê ao nosso redor parece o normal, o natural, pois é tudo o que conhecemos. Mas é legal pensar em mais possibilidade, ousar discordar, buscar outras opções. Nem que seja para ter certeza que não são para você.

Experimentar hoje pode economizar muito sofrimento lá na frente, pois você vai seguir para um futuro onde você tem mais certeza de quem você é e do que realmente gosta. E aí é só alegria.

ADBVoltando à questão de gostar de duas pessoas ao mesmo tempo

A primeira vez que eu li sobre isso foi em “O Anjo de Butes”, livro autobiográfico do artista plástico Fernando Carpaneda, em que ele conta sobre o longo relacionamento que teve em trio, com um cara e uma mulher. Tudo que tinha lido ou visto antes disso terminava com o personagem tendo que fazer uma escolha e aqui não era o caso. Fiquei fascinado. E não era um relacionamento aberto, era um acordo de fidelidade a três. Me pareceu uma ideia muito interessante. Ainda me parece.

O problema é que isso ainda é pouco conversado e aceito. Às vezes você acha essa “novidade” uma ideia interessante, mas ela é descartada de cara pela pessoa ao seu lado, pois ela não foi criada para isso – no sentido de que nada sobre essa lado da moeda lhe foi ensinado, nunca.

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Tirinha do Tiago Silva (Quadrinhos Impossíveis)

Se você buscar aí no Google, vai ver inúmeras pesquisas sobre monogamia ser uma ilusão, sobre orientação sexual que flutua, e vai até achar várias matérias legais sobre amar duas pessoas ao mesmo tempo, até entrevistando especialistas na área, mas sempre com uma conclusão absurda: a de que se você está em um relacionamento e sentindo coisas por uma outra pessoa, isso significa que o seu relacionamento está deficiente em alguma coisa e você encontrou alguém que complete essa falta.

E isso é uma mentira, nem sempre é esse o caso.

As pessoas são diferentes. Elas nos atraem por motivos diferentes. E é por isso que é, sim, possível amar duas pessoas (ou mais!) ao mesmo tempo. Todos os nossos outros amores na vida são plurais. Amamos, ao mesmo tempo, amigos, pais, irmãos. Ter apenas um amor parceiro/cônjuge é uma construção social, como eu disse anteriormente.

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Opções do Facebook para status de relacionamento

Matematicamente falando: uma pessoa te atrai por um grupo de características, outra pessoa por outro grupo. Faz muito mais sentido somar tudo isso que buscar uma pessoa que tenha de uma vez todas as características. Esperar ter tudo em uma pessoa só é praticamente impossível e buscar isso é colocar bastante pressão em cima dela – apesar de ser possível ficar com uma pessoa só se as duas partes estiverem dispostas a ceder e/ou a reprimir certos desejos.

Mas é isso que você quer? A pessoa ao seu lado vale à pena assim? Vale abrir mão de certas coisas por ela? Você sabe do que ela está abrindo mão pra ficar com você? Coloquem tudo isso na balança, na mesa, e conversem de coração aberto e com carinho pra se entenderem.

Contanto que a gente não destrua possibilidades afetivas, precisamos desconstruir essa ideia de amor romântico. O número de variáveis dentro de uma relação é infinito e flertar é uma brincadeira para o ego. Na minha observação, aliás, sempre aconteceu o contrário: os relacionamentos que tive e testemunhei que mais pareciam saudáveis vistos do lado de fora eram, na verdade, os mais malucos. A falta de diálogo e de combinados tem um preço alto – enquanto, como diz o ditado, o que é combinado não sai caro.

Com as cartas na mesa a gente joga melhor: o que pode, pode; o que não pode, não pode. Mas como saber o que pode e o que não pode se nunca conversarmos sobre nossas vontades de forma honesta e aberta? Se ficarmos cada um de um lado, deduzindo o que o outro quer e gosta e pensa, está aí uma relação que não vai mesmo evoluir igual, pro mesmo lugar e nem no mesmo ritmo.

Sei lá.

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O Joelho de Claire
dir. Éric Rohmer
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Alguns dos tipos de relacionamento possíveis

Por que muitos gays mais velhos estão deprimidos – e como evitar ser um deles

Quando você vai a um bar ou uma balada, ou quando está navegando em um desses aplicativos de pegação, qual sua reação ao ver um homem acima dos 55 anos?

Já disse uma vez (nesse post aqui) que envelhecer é o elefante branco da comunidade gay. É complicadíssimo assumir-se para si mesmo, para a família, para os amigos. E acho que, por esse motivo, há a impressão que, uma vez tudo isso feito, a vida agora é só festa. Não é bem assim, meu caro. Aliás, a vida de ninguém é só festa. Mas percebo que falta mais no homem gay essa noção, pois existem mais obstáculos em seu caminho – e ele quer que a estrada que ele anda, entre um obstáculo e outro, seja a melhor estrada possível. Super compreensível esse desejo.

Mas, por causa dele, percebo que nos tornamos maquininhas de busca pelo novo, pelo inédito e pela perfeição, três coisas que fariam essa estrada super divertida mesmo, mas que não se sustentam a longo prazo – pois são três conceitos relativos e superficiais.

É antagônico: a eterna busca pela novidade te mantém vibrante e interessante, mas também te impede de se enxergar por completo. E fica fácil escorregar e se tornar uma pessoa manipulável e sem opinião própria (afinal, você gosta das coisas que você gosta realmente por gostar delas ou você apenas quer gostar do que os outros estão gostando?).

Além disso: sem conhecimentos prévios, sem referências do passado, seu julgamento do atual e do futuro é disforme – tudo te parecerá novidade, mesmo sendo só um remix do que já existia no passado e você não buscou conhecer. Não temos tempo pra pensar nisso, nosso medo de parecer desatualizado é grande demais.

vejaE a eterna busca pela perfeição é a cereja no topo desse bolo problemático: no fim do primeiro grande surto de aids dos anos 1980, começou a aparecer aqui e ali um grupo de gays que foi chamado de Barbies, devido ao seus corpos “perfeitos”.

Eles eram uma resposta (quase em inconsciente coletivo) à imagem do gay com aids daquela época, tempos em que o preconceito era ainda maior, que os tratamentos eram bem menos eficazes que hoje, e que quem tinha a doença acabava sempre magro demais, até cadavérico em casos extremos.

Como no começo a aids foi tratada como uma doença exclusivamente gay (o que ela, de fato, não é), essa imagem do gay saudável, bronzeado e musculoso foi propagada mundo afora numa tentativa de tirar dos gays a exclusividade dessa doença – e de mostrar que tinha muito cara saudável nesse grupo. Foi daí que veio o termo em português “sarado” para pessoas com bom condicionamento físico, uma alusão a estar “curado” da doença.

Essa propaganda de estilo de vida saiu de controle e se voltou contra a própria comunidade: quem não estivesse com o corpo torneado era visto com maus olhos e tratado como um gay de segunda por esses caras que se julgavam no topo da pirâmide de beleza. Não me deixam mentir os “machos com corpo em dia, discretos e foras do meio” que você vê hoje nos apps de pegação, uma herança direta desse tipo de pensamento de 30 anos atrás.

E cá estamos agora, num grupo tratado pela sociedade com certo desprezo (onde gay só é legal na hora de fazer rir ou decorar a casa, se o assunto é sério e envolve crimes de ódio ou direitos civis, todo mundo desvia o olhar de você) e onde existem esses preconceitos internos. Todo dia aparece uma cantora nova ou um filme novo ou uma série nova ou um vídeo engraçadinho novo na internet que você pre-ci-sa ver e, depois, ficar repetindo sem parar, achando que a vida – e que ser gay – é sobre isso. Pelo menos no grupo ao meu redor as coisas são assim, certamente cada grupo tem suas “regras” próprias.

A questão é que ninguém ousa ser muito diferente disso, não ousamos botar o pé pra fora demais desse mundinho, pois existe um medo de ficarmos “presos” do lado de fora de um grupo que já é fechado e isolado dos demais. vivemos em uma sociedade heteronormativa, afinal.

A celebração da juventude acontece entre todos os grupos sociais, mas é particularmente forte entre gays. Vemos cada vez mais uma pressão externa (que aí vira interna e depois externa de novo) por uma perfeição física e também de costumes e trejeitos que são ou praticamente inalcançáveis ou vão contra a própria natureza da pessoa em questão. Homens que são muito magros, gordos demais, sem barba ou que são afeminados, por exemplo, parecem não ter vez – e essas características, na maioria das vezes, não são opções dessas pessoas, elas nascem assim e mudar isso nelas mesmas não é uma opção que as deixará bem consigo mesmas.

Captura de Tela 2016-01-10 às 22.05.29E vira esse ciclo, onde todo mundo tenta um pouco, na medida do possível, manter-se “no grupo” por um desses dois caminhos (de estar por dentro da modinha do momento e de correr atrás do corpo perfeito) ou tentando uma combinação deles. Isso não é um julgamento meu, são apenas fatos: a sensação de pertencimento é importante quando vivemos em grupo, somos animais de cultura.

Mas quão longe é longe demais? Somos reféns de nós mesmos, nesse sentido, voltando para a questão lá de cima que é, pra mim, a conclusão de tudo: você gosta das coisas que você gosta por realmente gostar delas ou te ensinaram que aquilo ali é que é bom e você engoliu? Engolimos essa regras desconfortáveis com medo de virarmos piada, de virarmos alvo de crimes, com medo de gostar de coisas que seus amigos não conhecem e se isolar ainda mais.

O que você está fazendo por si mesmo e o que você está fazendo apenas pelos outros? Se você se perguntar esse tipo de coisa e for honesto na resposta para si mesmo, se deixar levar na reflexão e se observar com cuidado, vai saber responder. E essas respostas, uma a uma, podem te ajudar a entender quem você realmente é, do que você realmente gosta, quanto você realmente vale.

Entenda: você é mais que seus seguidores no Instagram, você é mais que os discos que você ouve, você é mais que seus músculos bonitos, você é mais que um nome na lista da festa, você é mais que os memes que reproduz. Mas se você mesmo precisa se enxergar assim.

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81 anos (e 9 meses) sendo gay! Mas talvez seja apenas uma fase.

E não é só achismo meu, tem pesquisa mostrando isso. Gays idosos têm maior tendência à depressão, segundo esse estudo aqui. Afinal, esses gays, agora na terceira idade, foram criados (como nós estamos sendo) dentro de uma cultura de idolatria do corpo e da novidade e, agora, sofrem da sobreposição de dois preconceitos internalizados, contra gays e contra pessoas mais velhas.

Quando a juventude e as novidades passaram, o que sobrou para eles? Pergunte-se: o que vai sobrar para você?

Quanto mais cedo a gente refletir sobre esse assunto, quanto mais cedo pararmos de vermos os mais velhos como incapazes, feios ou inúteis, mais fácil vai ser de tirar essas vendas estúpidas dos nossos olhos – e o resultado é uma boa saúde mental (na velhice e agora).

E temos coisas que precisamos comemorar: ser gay hoje ainda é complicado, mas bem menos que nas décadas passadas. A próxima geração de gays velhos vai ter bem menos membros que foram expulsos de casa ou proibidos de casar com quem queriam, o que já pode garantir um futuro melhor, de forma geral.

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Printscreen de um perfil no app Grindr

Quando você vai a um bar ou uma balada, ou quando está navegando em um desses apps de pegação, qual sua reação ao ver um homem acima dos 55 anos? Lembre-se que você vai virar um deles um dia e esse dia vai chegar mais rápido do que você imagina agora.

Se você é um jovem que não sente atração por velhos, só vai descobrir o “mercado” efervescente das relações inter-idades quando você for a parte velha do casal. E é impressionante o número de gays jovens que só se relacionam com velhos. Não é o estereótipo da relação de interesse (“sugar daddy”) e não é o caso “gosto de mais velhos” quando um cara de 22 anos quer um de 30. São velhos mesmo, de 60, 70 anos. E tudo bem. “Ah, mas eu não quero estar solteiro aos 60 anos”, muitos me dizem. Mas quem disse que isso é regra? Talvez você não enxergue os relacionamentos maduros que são felizes e duradouros pois esses casais simplesmente não frequentam os mesmos lugares que você.

Envelhecer é preciso, pois é inevitável. Não só envelhecer, aliás, amadurecer também. É só olhar aí ao seu redor e você vai ver um bando de homem com 35 anos nas costas ouvindo a música pop que é feita por gravadoras para meninas de 11 anos e lendo nada mais que livros para adolescentes. Esses exemplos sozinhos não dizem nada, claro – você pode fazer essas coisas e ser uma pessoa ótima e esclarecida -, o que quero dizer é que o único conceito de tempo que existe é que ele está passando. E o que você está fazendo de valioso com o seu? O que você está construindo para você mesmo a longo prazo?

A gente envelhece uma hora e ignorar esse fato não vai afastar a velhice de você. Refletir sobre seu futuro, sua velhice, sobre solidão, doença, aposentadoria e até sobre sua morte, não tem nada a ver com depressão ou pessimismo, tem a ver com ser realista. Já que, inclusive, há um limite pro que você pode fazer pela sua própria aparência também.

Acredite: ninguém chega no próprio leito de morte e olha para trás desejando ter dormido mais e viajado menos. Tudo bem querer ser alguém na noite hoje. Mas seja alguém no dia também.

O incrível mundo invisível dos youtubers influentes

Ou “Minha vizinha também tem um blog muito bom e vai cobrar mais barato”

A dupla Ian Hecox e Anthony Padilla tem 20 milhões de seguidores em seu canal no YouTube, com vídeos engraçados, e estão lançando um filme (“Smosh — The Movie”)! Felix Kjellberg é um sueco de 25 anos que faz vídeos dele mesmo jogando vídeo-game e tem 40 milhões de seguidores em seu canal — em 2014, ele acumulou 12 milhões de dólares, segundo a Forbes!

O mundo dos youtubers nunca movimentou tanta gente, tanto dinheiro e tantas marcas. O número de pessoas famosas que você não conhece nunca foi tão grande.

Você se lembra do primeiro youtuber que assistiu? Eu sim. Era basicamente o PC Siqueira falando como ele preferia brincar com bonecos de dinossauros a fazer sexo. Ri bastante e pensei: “Esse carinha é engraçado”. Aí você adianta essa história, apenas cinco anos para frente, e hoje o tal carinha ganha mais dinheiro que toda a minha família junta. O que aconteceu nesse meio?

Vlogueiros não são novidade no mundo. Desde o comecinho da internet doméstica, digamos assim, tem gente no Japão com sua webcam ligada 24 horas por dia. Na maioria dos países, como no Brasil e nos Estados Unidos, youtubers (que é quem faz conteúdo apenas em vídeo, não necessariamente baseado em um blog) se estabeleceram em um formato de sucesso: falar sozinhos, de frente para uma câmera, com regularidade e uma edição dinâmica. Os temas vão variando e a tendência é que cada um fale mais sobre os assuntos que ele domina (ou acha que domina), o que vai determinando o tamanho possível de sua audiência.

“Quanto mais você pensar ‘quero fazer sucesso’, menores serão as suas chances. Posso estar enganado, mas analisando a trajetória de todos os youtubers de destaque no cenário nacional e internacional, o único grande fator em comum que pude observar foi exatamente que todos começaram de forma despretensiosa, puramente para se divertir” — Felipe Neto ao Tecnoblog

E essa audiência e esses assuntos é que colocam o tal youtuber dentro da sala de reunião das agências na hora de criar uma campanha ou divulgar o lançamento de algum produto. O problema, geralmente, é entender se aquele menino ou menina são influenciadores mesmo para sua marca. Sozinho, isso já é uma novela, pois sempre tem alguém que resgata a famosa pergunta: afinal, o que é um influenciador? É apenas ter muito seguidores? Eu estaria rico se ganhasse um centavo pra cada vez que ouvi alguém dizer que “minha amiga também tem um blog de culinária que tem muitos seguidores e ela vai cobrar mais barato que esse cara aí, com certeza”.

“Ai, 6 mil reais por um post? Eu devia era ter feito um blog da vida kkkkk”. ATENDIMENTOS, todos que conheci na vida.

Isso gera sempre muita discussão, mas tem um certo fundamento: afinal, só é influenciador quem influencia alguém. Mas o buraco é mais embaixo que simplesmente ter audiência. Segundo Michael Wu, do Lithium (citado nesse texto aqui), o poder de influenciar depende de dois fatores: credibilidade, a expertise do influenciador em um determinado assunto; e o que ele chama de “largura de banda” (bandwidth), que é a habilidade do influenciador de transmitir esse seu conhecimento.

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Capa da Capricho de maio/2015

E é por isso que muitos deles parecem invisíveis pra tanta gente. A internet é poderosa o suficiente para propagar uma mensagem para longe, mas todo mundo vive dentro das suas bolhas demográficas ou culturais nas redes, e elas filtram o que chega até você. Influencers são tanto de massa quanto são nichados e se eles estão falando de assuntos fora do seu cotidiano, eles passam longe do seu radar.

O que os clientes não entendem (e, na verdade, muitas agências) é que ninguém pode ser um influenciador em todas as redes sociais — e muito menos em todos os assuntos. É sempre necessário parar, respirar, e pensar no influenciador como uma campanha completa e independente — e não como um pacotinho dentro de uma campanha tradicional, como geralmente é feito. Cada anúncio, em cada meio, tem um objetivo diferente.

É esse é o calcanhar de Aquiles na hora de vender a ideia pro cliente, que não conhece nenhum dos nomes tão belamente colocados nos seus slides. Você teve tempo para fazer uma imersão, perguntar pros seus sobrinhos e ver alguns vídeos — o cliente não. E acostumado a aprovar e alterar ad infinitum cada postzinho de Facebook que a agência cria, o cliente fica muito desconfortável em deixar na mão de um desconhecido a produção de um vídeo, afinal. E por que pagar tão caro em meia dúzia de “desconhecidos” se posso juntar a grana e pagar uma Fernanda Lima, não é mesmo?

Ao meu ver, a grande vantagem de um influenciador numa campanha é exatamente não ser a Fernanda Lima; é que ele fala de igual para igual com seu público, e de dentro da casa dele. Ter a estrela da novela usando o seu produto num comercial de TV em horário nobre é ótimo, mas você sabe muito bem que a dica da sua amiga sobre um produto conta muito mais quando você já está dentro da loja.

E é isso que esses youtubers representam: ao falarem do que gostam, atraem semelhantes e são vistos como parceiros para suas audiências. Por mais que muitos deles ganhem dinheiro e vivam disso, é muito mais natural vermos o Lucas Rangel falar sobre uma rede de fast-food que ver Fátima Bernardes falar sobre salsicha, mortadela e salame.

Para marcas, um bom influenciador é uma entrega de mídia e de conteúdo. Brifa ele bem, muito bem. Mas se você precisa enviar para ele o texto exato que ele tem que postar ou decorar, pule fora.

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“Quando faço check-in numa pousada e eles dão aquele papelzinho para preencher com nome e profissão, eu coloco que sou youtuber. É isso mesmo que sou, não quero nem saber” — Jout Jout em entrevista aO Globo

Outra peculiaridade desse mundo do YouTube é a rapidez. Enquanto a gente pensava melhor numa campanha que ia incluir um youtuberzinho que a gente curtia, ele cresceu, explodiu, e foi contratado com exclusividade por outra marca do mesmo segmento, em questão de semanas.

E que bom negócio esse: é muito vantajoso para uma marca ter um nome para chamar de seu, fidelizando pouco a pouco toda uma audiência que não para de crescer e que não é burra, e vai reparar se sua marca aparecer em seus vídeos favoritos com a mesma velocidade que vai sumir logo depois. Também segundo Michael Wu, é importante avaliar a possibilidade de uma pessoa ser influenciada e isso depende de quatro pontos:

a) Relevância: se as informações fornecidas não forem relevantes, elas serão ignoradas pelo seu público-alvo;

b) Timing: a habilidade do influenciador de entregar seu conhecimento ao público na hora certa, no momento em que as pessoas precisam saber ou ter aquilo. Fora dessa janela de tempo, a mensagem também poderá ser ignorada;

c) Alinhamento: o público do influenciador e o target do seu produto precisam estar no mesmo canal de mídia social ou então a informação vai demorar muito para chegar a ele — ou nunca vai chegar;

d) Confiança: o público-alvo precisa confiar no influenciador. Sem confiança, a informação é rebaixada, e sem um influenciador respeitado sua marca acaba virando uma apoiadora de pessoas sem noção (preciso nem citar exemplos aqui, certo?).

E voltamos à pergunta inicial: quem é a pessoa certa, então?

Depende do seu produto. Para seguir no exemplo que abre esse texto, o PC Siqueira fala de tudo em seu canal, mas sua especialidade sempre foi games, nerdices e gastronomia. Só faz sentido, então, uma marca de roupas fechar algo com ele se for pra divulgar uma linha de camisas com estampas de super-heróis. Qualquer outra coisa vai parecer propaganda — e as novas gerações correm pro lado oposto assim que ouvem um locutor anunciar que “é só até amanhã!”, mas engolem como água product placements assinados com um “olha que legal isso” saindo da boca de seus ídolos-amigos.

Então não fique preso aos mesmos nomes e deixe seu cliente sempre o mais atualizado possível do que está acontecendo — mesmo em épocas que não há campanha no ar. Mostre pra ele que o mundo é muito mais (e muito melhor) que apenas a Pugliese. Afinal, o número de pessoas famosas que vocês não conhecem nunca foi tão grande — tire vantagem disso.

Texto originalmente publicado no YouPix

Vale dizer: o autor desse blog tem um canal no YouTube, sabia? Clique aqui pra conhecer.

Homens de saia

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“Nem todo menino quer ser um soldado”

Há algum tempo mantenho um tumblr inspiracional chamado Dressed Boys. São inúmeras imagens de homens usando trajes que culturalmente dizemos que são apenas para mulheres. Eu seleciono as que eu acho mais bonitas – seja por pura estética ou por algum motivo político mesmo. Por causa desse site, uma jornalista do International Business Times me entrevistou para uma matéria muito interessante sobre o fim dos gêneros na moda. A matéria completa pode ser lida aqui. Mas como muita coisa ficou de fora e eu tinha todas as perguntas e respostas salvas no meu e-mail, resolvi traduzir para português a conversa e colocar aqui.

Laerte na capa da revista Bravo!

Eu amo seu blog. Há quanto tempo ele existe e o que te inspirou a cria-lo?

Obrigado! Eu o criei em setembro de 2011. Aqui no Brasil há um famoso (e genial) cartunista chamado Laerte que, um ano antes disso, tinha decidido posar como mulher na capa de uma revista. Na verdade, ele usava apenas brincos e unhas com esmalte, mas desde então ele começou a falar cada vez mais sobre crossdressing e como esse desejo lhe era comum. Com o tempo, incorporou mais e mais peças femininas e, hoje, Laerte se identifica como mulher. Ela mudou muito da minha própria percepção de gênero e quanto mais eu pesquisava sobre o assunto, mais imagens interessantes eu achava. Então eu quis criar um lugar para colecionar todas, e assim nasceu o tumblr.

Por que esse interesse em imagens de homens usando roupas que não são apenas calças/camisas? Por exemplo, por que você gosta de saias?

Primeiro pois eu acho bonito. É desafiador e sexy de um jeito não-óbvio. Acho que não só mostra que a pessoa está em contato com seu lado feminino, mas na verdade com ela mesma. E a dualidade me atrai também. E gosto de pensar que tudo ao nosso redor é apenas comportamento cultural, ensinado. Como cultura, a gente sempre está fazendo algo não necessariamente por gostarmos, mas pois foi o que aprendemos que é certo. Homens usavam roupas bem parecidas com vestidos e saias na Grécia antiga, por exemplo. As coisas mudaram, mas não se tornou “errado” homem usar saia, é só incomum, a gente pode trazer elas de volta. Eu conheço caras que experimentaram saias e acham que elas são muito mais confortáveis que, por exemplo, um skinny jeans.

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Eu usando salto pela primeira vez

Você acha que o jeito de se vestir dos homens modernos é limitado? Você usa vestido ou saias ou outras roupas femininas, acessório ou maquiagem?

Eu acho que o jeito de se vestir dos homens fica limitado por causa do contexto social. Se um cara vai trabalhar em um escritório mais careta com uma blusa pólo cor-de-rosa, é bem provável que os colegas de trabalho apontem e façam piadinhas com ele, o chamando de gay ou algo assim. Mas se o cara estiver em um show de metal, ele pode usar maquiagem e esmaltes pretos e ninguém vai falar nada. E se você usar salto alto numa Parada Gay o mais provável é que todo mundo te elogie.

Eu mesmo não uso muitas coisas femininas: lembro de ter passado batom em algumas festas, mas basicamente só isso. Mas de vez em quando compro roupas na parte feminina de certas lojas – as peças lá caem bem e têm mais variedades de textura e estampa. As seções masculinas podem ser meio tediosas.

Você mora no Brasil – tudo isso é mais aceitável por aí ou é um tabu como aqui nos EUA? (Eu vivo em Nova York e já morei em Nova Orleans. Aqui é um pouco menos “chamativo” do que seria, digamos, em certas parte do Texas)

É um super tabu. Eu acho que o Laerte está ajudando, fazendo as pessoas pensarem um pouco mais na questão, mas é um movimento lento em um grupo pequeno de pessoas considerando a população do país. É impossível sair de saia por aqui sem ser apontado ou incomodado por alguém na rua pelo menos uma vez. No tumblr, eu deixo aberto o link para quem quiser me enviar fotos que acharem. Mas melhor que isso, tem muitos homens de todas as partes do mundo que me enviam fotos deles mesmos usando saias ou salto, o que é bem legal. Mas reparei que quase nunca são fotos em público, eles estão sempre em casa sozinhos. Aqui em São Paulo, tenho amigos que usam salto e/ou maquiagem na noite, mas não são coisas do dia a dia deles. E é curioso pois no nosso Carnaval é quase que tradicional que homens se vistam de mulher, mas é apenas uma semana por ano e parece que nunca a festa traz discussões profundas sobre o tema – e acho que devia trazer. Nesse ano, por exemplo, tinha um cara vestido de princesa na rua e um grupo de gays passou do lado e mexeu com ele (acho que gritaram algo tipo “que princesa gata!”) e ele apelou, chamando os caras de bichas, viados, e palavras piores! É tão complicado… É muito confuso para heteros, que nunca tiveram que lidar com nenhum problema de identidade de gênero ou orientação sexual, terem que entender de uma vez casamento gay, transgêneros, crossdressing… É muita informação nova, muitas vezes sem nenhuma contextualização ou conhecimento prévio (pois nada disso é conversado por pais ou nas escolas), para quem nunca precisou pensar em nada que não o próprio umbigo. Eles confundem os conceitos, misturam, às vezes são preconceituosos até sem perceber. Você precisa repetir tudo de novo toda hora.

Rodrigo Faro

Você está vendo isso aparecer mais em revistas/blogs que você lê e segue?

Sim e amo isso! Sempre digo que programas de TV e revistas são caixinhas de estilos de vida. Então ter homens de saia nesses lugares ajuda a naturalizar essa escolha de roupas – mesmo que esses ensaios sejam com intuito de ser apenas ambíguo, do cara ainda ser “macho” por baixo da roupa de “mulherzinha”, sabe? De qualquer forma, é um passinho mais perto da formação de uma moda com gêneros menos definidos. E, o mais importante, liberdade e uma economia de questionamentos e dores e dinheiro de terapia para os homens que têm vontade de usar essas roupas e fazem escondido ou nem fazem – pois acham que isso significa que eles são doentes ou necessariamente gays.

Jaden Smith: o filho de Will Smith virou notícia ao aparecer frequentemente usando saia – inclusive no seu baile de formatura, ao lado da namorada

Então, você acha que homens que usam vestidos e saias são gays? Você acha que alguém como o Jaden Smith (que eu acho que é hetero) vai tornar isso mais aceitável.

Eu acho que a maioria dos homens que vemos de saia hoje em dia são gays, mas porque eles estão mais acostumados a brincar com os papéis de gênero, mais confortáveis em serem ousados, e se importam menos com a opinião alheia – eles já passaram por muitas coisas e piadinhas, o que vai ser uma a mais em troca de conforto?

Mas entendo que isso ajuda também a confundir os heteros. Eles pensam: “bom, Bruce Jenner usa vestido, mas ela é um mulher agora! Andrej Pejic se veste como mulher, mas ele realmente parece ser uma. Marc Jacobs usa saia, ah, mas ele é gay”. Entende? Não tem ninguém igual ele usando saia por aí – ainda. Eles sentem que têm algo a perder, como se ninguém fosse respeitá-los nunca mais como um homem hetero se ele passar batom uma vez. Por isso eu posto imagens de famosos no tumblr também: Brad Pitt, The Rock e todos os membros do Nirvana e do Red hot Chili Peppers já posaram usando vestidos e são todos heteros, que eu saiba. Eles mostram que é “ok to play”.

A juventude não-etária e o norm core circunstancial

(Tentei trazer pro pessoal essa pesquisa incrível da Box1824. Recomendo a leitura completa)

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No começo dos anos 2000, quando o preço dos CDs começou a caber melhor no meu jovem bolso, a minha maior diversão era ir em busca deles: comprei muita coisa boa e muita coisa ruim devido à falta de internet e possibilidade de pesquisar sobre os artistas antes. Comprei muito álbum pela capa. E enquanto me perdia na febre de descobrir coisas novas, minha mãe estava do meu lado comprando a versão em CD do vinis que ela tinha pelo menos uma década atrás. Não apenas isso, ela desdenhava tudo novo que eu colocava pra tocar. O cenário contrário não acontecia: eu e minha irmã voltávamos no tempo e ouvíamos Beatles e Bowie e Madonna oitentista, mas minha mãe não ousava ultrapassar o Acústico MTV da Rita Lee.

“Como assim baixar? Pra quê baixar?”, um amigo me pergunta sobre meu pedido de um link para músicas que eu tinha perdido limpando a memória do meu (já bem obsoleto) laptop. Ele argumentava que serviços de streamming eram muito mais fáceis, legais e práticos. Eu entendo mas discordo, pois tenho uma rotina de audição musical e achismos políticos sobre o mundo da música pop diferentes dos dele. Baixar o disco é o mais perto que consigo de tê-lo “materializado” em algum lugar sem precisar pagar pelo objeto CD, e gosto dessa sensação. Também por isso nunca me converti aos e-books, e não vejo isso acontecendo tão cedo – e não me acho superior nem inferior por causa disso.

Essas duas histórias não têm muita a ver uma com a outra, aparentemente. Mas têm: elas ilustram muito bem como apelamos para a aptidão tecnológica e gosto musical para separar os jovens dos mais velhos e quero mostrar aqui como esse tipo de modelo, esse tipo de rótulo, está ficando cada vez mais falho.

A JUVENTUDE NÃO-ETÁRIA

De forma geral, algumas pessoas já captaram que o modelo pessoal que mais funciona a longo prazo é o da juventude não-etária. Isso é completamente diferente de ser um adolescente metido a adulto e ainda mais diferente de um adulto que age como adolescente. Não é um movimento sobre gostar de dormir sem parar e comer fast-food mesmo tendo 33 anos nas costas – como muita gente da minha geração faz -, e nem ter 55 anos nas costas e voltar a usar boca de sino e fumar maconha – como muita gente da geração da minha mãe faz.

Segundo essa pesquisa, estar em “youth mode” não significa reviver pra sempre a sua própria adolescência, mas sim estar presente e jovem em qualquer idade. Juventude não é um processo, envelhecer é.

O melhor modelo disso, para mim, é o produtor musical Pharrell Williams. Do alto dos seus mais de 40 anos de idade, ele é um dos caras que mais ganhou dinheiro nos últimos tempos. De fora, pode parecer só mais um dançando conforme a música, mas youth mode é isso: é ser uma antena que absorve o que está acontecendo agora de forma muito ampla – e ele faz isso muito bem sem parecer um velho forçando sua juventude, é natural para ele. Há filtros e restrições, nem tudo ao redor me diz respeito, mas de forma geral você está alinhado e por dentro de todas as ondas em volta – e faz delas sua zona de conforto.

QUEM QUER SER DIFERENTE LEVANTA A MÃO

No colégio, eu e minha melhor amiga não éramos exatamente as pessoas mais populares. A febre do momento era o grupinho dos skatistas, que se vestia de forma “alternativa”. Mas alternativa a quê? Eu e ela, desde muito novos duas maquininhas de transformar recalque em problematização, sempre questionávamos como era incompatível que existisse um “grupo de diferentes”, pois uma palavra neutralizava a outra: se há coletividade, não é uma expressão de individualidade. Ou é? Vendo agora, o mesmo se aplicaria a nós mesmos, do lado de fora nos considerando não-participantes de um sistema, mas estávamos juntos do lado de cá.

O tempo passou e eu sofri calado – e se ao ler essa frase você lembrou da música sertaneja, vai entender bem esse próximo ponto: as tribos acabam quando você cresce. Com o tempo, o youth mode te faz perceber que o cool não é estar focado em uma coisa só, é ser plural. Aquele seu amigo que tinha complexo de underground, que odiava quando uma banda que só ele conhecia ficava popular, foi massacrado. Há uma “massificação do indie” hoje baseada em sobreposições: diferentes identidades (que na juventude eram essas tribos) não podem ser mútuas, mas geram sempre novas combinações. Você pode gostar de música clássica e rock ao mesmo tempo e ver valor no grupo de pagode noventista também. A bandinha considerada desconhecida e fresca em um grupo, é notícia velha em outro.

Pharrell, por exemplo, que uma vez fazia clipes de rap ostentação com mulheres objetificadas, agora vai no programa da Ellen DeGeneres (abertamente lésbica) lançar um perfume unissex chamado Girl e pedir salário mais justos para as mulheres no mercado de trabalho. Fazer uma escolha hoje e uma escolha oposta amanhã não te faz um hipócrita, apenas te faz complexo, apenas deixa óbvia sua evolução. Ninguém “é”, todos “estão”. Eu fui uma dessas pessoas que nasceu em comunidades (culturais e religiosas) e fui buscar minha individualidade. A próxima geração nascerá como indivíduos e vai buscar as suas panelinhas.

MAS AÍ QUE TÁ

Mas o problema disso em escala pessoal é que fica extremamente difícil de navegar nas suas relações de dia a dia de forma profunda. Os detalhes que te definem são tão pequenos que ninguém percebe que você é diferente. E aí pousa a falta de sucesso em relacionamentos duradouros (amorosos ou de amizade): é preciso investir tempo para descobrir esse detalhes e fica cada vez mais difícil acompanhar o todo. Se o primeiro detalhe relevante que aparece não agrada o outro, ele já pula fora – ele pensa que não tem tempo a perder ali e que, se por cima todo mundo é tão igual, “vou logo pular para um igual que tenha um algo extra mais fácil de ser identificado superficialmente (dinheiro, carro, roupas, corpo, a lista é longa) para que eu não perca tanto tempo novamente”.

Um outro problema é o individualismo travestido de isolamento (ou seria o contrário?). Você se cerca daquele conforto que faz sentido pra você e se torna tão especial que ninguém sabe do que você está falando: você só sabe falar do livro incrível que mais ninguém leu, da série vintage que ninguém mais assistiu, da piada que ninguém mais entendeu, da causa que ninguém mais luta. E esse problema vai de encontro ao anterior: você não se identifica com ninguém nem no todo, imagine nos detalhes! Sua vida vira uma festa tão exclusiva que você é o único convidado. Ou, pior, há uma profunda identificação superficial. É aquela menina no filme do Woody Allen que se vende como intelectual mas que só sabe uma frase de cada pensador, o suficiente para manter sua persona intacta e fascinantemente misteriosa, dando a entender que ela sabe mais do que o que está falando – mas não sabe.

O FUTURO JÁ COMEÇOU

A contra partida de tudo isso é o norm core social no qual cada vez mais gente está pulando de ponta: se a individualidade era uma promessa de liberdade pessoal que falhou, a saída é a não-exclusividade mesmo, escancarada, é o quase orgulho em ser só mais um, é a libertação em não ser tão especial e o entendimento de que só a adaptabilidade leva ao pertencimento. Guardo pra mim a série vintage que ninguém viu e passo a comentar com todo mundo apenas sobre a série que todo mundo vê, paro de lutar em nome das baleias albinas da Patagônia e vou lutar por ciclofaixas. E por aí vai. Todas as causas e movimentos são relevantes, mas a massificação deles reflete um pouco esse fim do esforço em ser diferente (ele tendo sido consciente ou não no passado). Quantas vezes mais seus amigos vão rir da pessoa que tem capa de crochê no botijão de gás ou xingar Romero Britto? Não sei, mas pode apostar que metade deles tem a mesmíssima moldura amarela de “Friends” na porta, uma jarra em formato de abacaxi na cozinha ou pelo menos um pôster de “Keep Calm” na sala. O que esse norm core mostra, na verdade, é que o normal não existe – ele é circunstancial – e na verdade aquela panelinha adolescente ganhou uma dimensão gigantesca e culturalmente mais ampla, apenas isso – as regras mudaram, mas seguem existindo. Escolha o comportamento e um local (bairro, país, empresa, boate) e complete a frase: “é norm core fazer _______ em ________”. E é isso. Fim.

Os mercados de trabalho procuram por basicamente dois tipos de profissionais: o cara que sabe um pouco de vários assuntos ou o cara que sabe muito de um assunto só. O futuro social tem mais a ver com essa primeira categoria. Aos poucos as pessoas estão se tocando disso e se tornando presentes em mais aspectos da vida ao redor, dominando (mesmo que superficialmente) cada vez mais coisas.

No último Natal em família, levei um show da Amy Winehouse pra tocar na TV e quando começou a tocar a música “Back to Black” minha mãe soltou: “Adoro essa música!”. E quando coloquei um show da Adele, ela palpitou: “gostei dela, a voz dela é muito boa e o show é legal por causa da voz, não por causa de dançarinos e telões, não é?”

Apenas respondi: “é”.

O Gato Que Precisa Se Reafirmar

Uma onda de comportamento antiga e que todo mundo conhece bem é a cozinhada de WhatsApp. Não interessa como o seu número chegou aos contatos da outra pessoa, o que importa aqui é que nunca sai disso: começa com bom dia todo dia, como tão as coisas por aí?, planos pro final de semana?, e termina com um emoticon genérico.

E tem uma nova onda de comportamento idiota de caras por aí muito ligada à essa anterior. Na verdade, é praticamente um novo velho personagem da cultura popular dos relacionamentos modernos (que, inevitavelmente, passam pelo WhatsApp em algum momento): o Gato Que Precisa Se Reafirmar.

Ele é aquele filho da puta que te dá mole, sempre deu, que você ficou uma ou duas vezes e foi bem legal, mas ele sempre te dá uma cozinhada depois. Mas ele é gato e você está a fim dele e da companhia. Mas, quando topa a parada, ele categoricamente não quer mais.

O dia que você sugere ele não pode, não tem agenda, está uma correria no trabalho. Aí você deixa pra ele escolher o dia então, e ele escolhe, mas ele para de te responder quando você manda mensagem na véspera pra confirmar. E se você telefona pra ele, ele sempre estava no banho e não ouviu o celular tocar.

E se aparece depois com alguma desculpa pro bolo que te deu, ela é sempre plausível o suficiente pra fazer você não cobrar mais explicações (“fui cochilar e dormi a noite toda”, “acompanhei um amigo no hospital”, “surgiu uma viagem inesperada e não tive como te avisar”, “tinha um aniversário e durou mais do que imaginei”).

E você não quer pagar de maluco já que vocês mal se conhecem e já que a etiqueta de primeiros encontros e de não-relacionamentos é apenas uma: não parecer desesperado – uma corda que sempre arrebenta do lado inocente das histórias. Então você aceita e fica na sua, fingindo que não viu todas as falhas nas justificativas. Fingindo que não quer perguntar: porra, você não tem culhões pra fazer uma ligação? Você não teve 30 segundos pra digitar uma mensagem? Ou você é apenas só um idiota sem palavra mesmo?

Conclusão: o Gato Que Precisa Se Reafirmar, na verdade, só quer saber se você transaria com ele ou não. No que você responde que sim, você e o ato não interessam mais. Ele só quer a informação.

Aí passa um tempão, você esquece que ele é Gato Que Precisa Se Reafirmar e, veja só, cai no papo dele de novo e o convite se transforma, de novo, num desconvite.

Bom, estamos todos aqui pra te falar (caso não tenham te falado ainda ou seja complicado lembrar): isso não é uma fase, ele é assim. Não é nada com você, nada de errado com você, nem é algo pessoal. É simplesmente babaquice alheia mesmo. Respire fundo e ignore essa pessoa daqui em diante. Delete das suas agendas e redes e vida. Vai ser muito melhor pra você. Quem tá interessado de verdade, sempre aparece. Se você não está se sentindo minimamente priorizado, pule fura o mais cedo possível.

E, caso você seja um desses que some, um recadinho: ignorar alguém é ensinar esse alguém a viver sem você.

(baseado na ótima série de tweets da @racheljuraski)

4 motivos que fazem a Starbucks ser o melhor lugar para encontros

 Só pra deixar claro: esse texto contém sarcasmo e ironia.

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1 – É barato
Claro que um pingado no boteco custa bem menos que qualquer blend de caramelo macchiato com leite de soja e chantilly extra. Mas uma ida à essa cafeteria custa bem menos que um jantar romântico. E no ritmo que a galera tá, de ter pelo menos dois dates por semana, só indo à Starbucks pra garantir o máximo de glamour com o mínimo de custo.

2 – É puro romance
Só tem uma coisa mais romântica do que ficar 15 minutos em pé numa fila do lado de uma pessoa que você acabou de conhecer: ficar outros 20 minutos do lado de um outro casal que acabou de se conhecer. Starbucks é um ótimo lugar pra dates pois tá todo mundo num date ao redor, inclusive o seu date da semana passada tá logo ali. Isso quando ele não está logo aqui, do seu ladinho mesmo, nessas ma-ra-vi-lho-sas mesas compartilhadas.

3 – É super prático
Você tem saído demais? Esqueceu o nome da pessoa? Seja cortês e deixe ela passar na sua frente. Quando fizer o pedido, ela precisa falar o próprio nome para o barista, daí você dá aquela última confirmada pra não chamar a pessoa pelo nome errado. Ah, isso sem falar que se você pede algo pra comer (o item mais barato do cardápio é uns 8 reais), eles te servem num saco de papel e não num prato com talheres ao lado, pra quê isso tudo, né? Assim fica mais fácil levar a gororoba pra casa caso o encontro esteja uma bosta.

4 – É logo ali
Meu, apesar dessa economia de merda do PT, São Paulo está sendo invadida por Starbucks, tem uma em cada esquina, como está evidente nesse mapa abaixo. Ok, talvez elas estejam um pouco mais concentradas ali pros lados dos Jardins e Vila Olímpia mas, aff, pra quê conhecer gente de outros bairros, né?

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Só pra deixar mais claro ainda: esse texto contém sarcasmo e ironia!

Onde você quer acordar?

– Por que você terminou com seu ex?

Eu não odeio que me façam essa pergunta, mas estranho quando é o atual quem pergunta. Afinal, o que ele quer ouvir? O que possivelmente vai sair de bom de uma resposta honesta pra essa pergunta? Bom, talvez ele já receba um alerta sobre algum tipo de comportamento que é melhor ele não fazer, então decidi responder.

– Ele era meio preguiçoso.

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Você não é jovem demais para se sentir tão cansado?

Era verdade. O moço pediu pra explicar e expliquei: o cara nunca queria fazer nada. Eu sou super fã de ficar em casa e ver TV, mas todo dia? Ele reclamava de ir no restaurante da esquina. No dia seguinte ao que ele dormia aqui em casa, eu acordava, tomava café, ia à academia e ao supermercado e quando voltava ele ainda estava dormindo. Reclamava sem parar do emprego, mas tinha preguiça de procurar um outro e medo de enfrentar o chefe. Não aguentei ficar do lado de tamanha vitimização, de tanto colocar a culpa de suas não-realizações nos outros ou nas circunstâncias.

“Eu já dormi o suficiente”, lembro de argumentar isso quando ele insistia pra eu não sair da cama. E lá eu ficaria se fosse pra ficar deitado abraçado conversando sobre a vida, se ele tivesse me trazido torradas com café, mas ele falava isso e voltava a dormir imediatamente. Eu não queria perder meu dia ali. Meus momentos livres são preciosos demais.

Sei que parecia/pareço babaca, mas nunca ouvi dizer de alguém que chegou em seu leito de morte e disse que queria ter dormido mais. Vamos viver! Dormir é um ato fisiológico, não é um hobby. Mas parece que não é isso que muita gente quer. Muita gente por aí é preguiçosa e se arma de desculpas para justificar suas não-vontades, suas não-ambições, suas não-atividades, seus não-feitos.

Não é muito popular dizer que você não acha dormir a coisa mais legal do mundo – é tipo falar que você não gosta de barba ou de gatos. Mas para minha (boa) surpresa recebi uma resposta interessante para o tweet acima, que me fez entender um pouco mais a coisa:

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E não é? Uma galera que se enraizou em ambições adolescentes e morre de orgulho disso. Quando é que essas pessoas vão crescer?

Nunca ou tarde demais, segundo sugere uma matéria da Vice inglesa sobre a “triste geração que não sabe a hora de parar de festejar”. Nela, falam sobre pessoas que estão no meio da casa dos 20 anos – ou mesmo na casa do 30 – e se contentam com empregos que paguem o suficiente para eles se vestirem e se lavarem enquanto contam os dias para o próximo final de semana. É muito antagônico, na minha opinião, achar que isso é qualidade de vida, esses altos e baixos. Um monte de Ferris Bueller (personagem do supervalorizado “Curtindo a Vida Adoidado”) querendo experiências divertidas sem saber o que fazer entre uma e outra.

A matéria da Vice e o filme falam sobre outro tipo de comportamento, mas casam bem com essa minha preguiça de preguiçosos, pois também tenho preguiça de hedonistas. Quero do meu lado alguém que equilibre essas duas coisas. Quero aprender a equilibrá-las melhor também.

Para nenhuma surpresa minha, quando expliquei o término do relacionamento anterior, o atual ficou cabreiro. Na primeira manhã de sábado que passamos juntos eu entendi o motivo. E relevei por algum tempo, ele valia à pena, mas aí não aguentei novamente.

De fora, sei que todos acham que eu é que devia me acalmar, mas eu só quero descansar quando eu estiver realmente cansado – e cansado de ter feito coisas que realmente valeram à pena.

Os 30 não são os novos 20

Esse assunto sempre me faz lembrar dessa palestra da psicóloga Meg Jay. Ela defende que, apesar das pessoas estarem casando e tendo filhos mais tarde, elas precisam se preparar cada vez mais cedo para terem a vida que querem ter. É uma ilusão essa ideia de que, por estarmos vivendo mais, a vida começa aos 30.

Cuidar dos seus 20 e poucos anos é a mais fácil e mais eficaz maneira de fazer transformações na sua carreira, na sua vida amorosa, na sua felicidade e, talvez, no mundo. Pesquisas mostram que aos 35 anos a maioria das pessoas já tomou todas as grandes decisões que vão moldar o resto de suas vidas.

O que você acha que acontece quando você faz carinho na cabeça de um jovem de 20 anos e diz que ele tem tempo de sobra? Nada acontece! Você tira dessa pessoa toda sua urgência e ambição.

Pois é, pois o buraco é mais embaixo: sim, muita gente se enraizou em ambições adolescentes e morre de orgulho disso, mas é que nossa sociedade apoia esse tipo de comportamento. A mídia trivializa a década mais decisiva da vida adulta e te distrai com um leque enorme de entretenimentos que não te fazem pensar, as pessoas comem o que bem querem sem se importar com o efeito colateral daquilo a longo prazo, não se importam com sua saúde, têm relacionamentos descartáveis ou se casam com o primeiro que aparece só pra não ser mais solteiro, enfrentam filas para entrar numa loja que te sugere ter sempre 21 anos.

Daqui 10 anos, quando essas pessoas finalmente pararem de dormir, onde elas vão acordar? Meu grande medo pra mim e meu grande apelo para todos é: não seja definido pelas coisas que você deixou de fazer.

Quem descansa hoje, tem que trabalhar muito mais amanhã. Ou se contentar em não ter tudo aquilo que, só agora, decidiu que quer ter.

Visualizada em

Eu sou o último a cagar regra sobre relacionamentos alheios. Vivi e vi de perto jeitos tão diferentes de tê-los que é impossível ser. E vi de perto histórias bonitas e longas nascerem de lugares muito improváveis. O jeito que as pessoas se relacionam com seus celulares, perfis, apps e com quem conhecem ou deixam de conhecer nessa vida fora e dentro das telas varia mais do que podemos imaginar. Cada um tem seus contextos, intenções e históricos de vida.

Mas tem uma coisa que me irrita muito nessa vidinha moderna de merda: o silêncio. Ele não era uma opção antes. Se você telefonava pra alguém e chamava essa pessoa pra sair ela tinha que dizer se aceitava ou não. E a vida seguia com os dois juntos ou separados. Mas essa possibilidade de falar com muita gente ao mesmo tempo acabou com isso. As pessoas perderam o foco pois não querem perder oportunidades. Estar com alguém é não estar com outros, e escolha é uma coisa dolorosa, eu sei, mas necessária.

E aí acontece o silêncio. Aquela falta de resposta que deixa as pessoas loucas. Especialmente com a etiqueta socio-emocional de que cobrar uma resposta é “desespero”. Sim, parece que a falta de educação virou a opção certa.

Então a pessoa senta e olha ali aquele pedido e aquela declaração que ficou às moscas. E vê a pessoa online sem responder. E vê que a pessoa mexeu no celular ou no computador (pois postou um status ou uma foto) e não respondeu mesmo assim. Esse silêncio tecnológico é a coisa mais ingrata que pode existir. Esse brincar de fade out.

Ir sumindo da vida do outro “até ele se tocar” é o cúmulo da falta de culhões. É lindo e poético dizer que se é do tipo que corre atrás do que se quer – mas é necessário muito mais coragem para ter claro na cabeça o que não se quer e comunicar isso aos quatro ventos – doa a quem doer. E quem diz ter coragem de um, tem que ter coragem do outro.

As pessoas se relacionam com as coisas e com os outros de formas peculiares, e é impossível generalizá-las. Mas o que quero dizer é que a vida é feita de escolhas. O mundo é feito de escolhas. E, logo, de consequências. Dá pra ter e fazer muita coisa ao mesmo tempo, mas não tudo.

Se uma decisão sua afeta os outros, eles precisam saber dela, já que todos vão arcar com os prós e contras dela. Inclusive pois essa profusão de caminhos deixa as pessoas mais paradas do que andando. Quem tem todos, na verdade, não tem ninguém. E pode ser gostoso se esconder, mas é um terror não ser encontrado.

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Uma obsessão infinita: a opinião alheia

Yayoi Kusama é uma artista plástica japonesa nascida em 1929 que já fez de tudo: pintura, vídeos, instalações, esculturas e performances. E, dentro de cada um desses itens, coisas muito diferentes – entre si e dos demais. “Obsessão Infinita” é a primeira retrospectiva de sua obra a ser apresentada na América Latina e reúne mais de 100 itens, uma curadoria que vai de 1950 a 2013.

Claro que eu não sabia de nada disso, copiei do programa da exposição. Aliás, até dia desses, nunca tinha ouvido falar nessa mulher. Mas tudo bem. Não sou mesmo a pessoa mais ligada em arte, minha ignorância no assunto não faz nada a não ser justificar sua própria existência.

Mas esse não parecia ser o caso de todo o resto da cidade de São Paulo que, no feriado de 9 de julho, depois de uma lavada da seleção brasileira de futebol em um certo torneio, decidiu ir toda para o museu.

A fila era longa, muito longa, eu não teria enfrentado se não estivesse acompanhado por alguém decidido a entrar. As pessoas enfrentam agora, na reta final da exposição no Instituto Tomie Ohtake (Rua Coropés, 88, Pinheiros), de 1h a 2h de fila para ver as obras da japa.

Aliás, era assim que ela era referida na fila. “Vim ver a exposição da japa”, disse uma menina ao celular atrás de mim. Muita gritaria e selfies na fila, que mais parecia para um show da Miley Cyrus por ser longa, cheia de muitos adolescentes com seus pais e jovens adultos com seus amigos, e também por contar com uma moça vendendo água, cerveja e refris num isopor.

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Quando finalmente colocamos o pé dentro, surpresa!, mais fila. Cada sala tem a sua, é impossível circular livremente. É muito claro que mesmo agora o lugar não está preparado para tanta gente. Eu nunca vi filas tão longas nem nos piores dias das exposições do David Bowie ou Stanley Kubrick no Museu da Imagem e do Som (MIS). O que é que essa japa tem? De onde sai tanta gente tão sedenta por arte abstrata?

Bom, a primeira instalação tinha uma coisa curiosa: um aviso de permanência de 20 segundos. V-i-n-t-e s-e-g-u-n-d-o-s. E aí eu entendi tudo: quando o grupo que entrou na minha frente (ninguém sozinho, ninguém sem um celular em mãos) foi literalmente expulso de lá pelo segurança – da maneira mais rude possível – uma das moças virou pra mim e disse: “olha, só dá tempo de tirar foto e ir embora”.

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Usar esse curto tempo para tirar fotos e apreciar a obra depois faz sentido, mas é contra a intenção da artista caso esse tempo limite fosse decisão dela – o que nem sei se é o caso. Ou seja, aquela fila toda de pessoas lá fora estava era só querendo um cenário diferente para suas fotos.

Eu não sou contra quem tira fotos em exposições, eu mesmo já tirei várias fotos em museus. Claro, vê-las em sua timeline pode incomodar pois não deixam de ser spoilers, mas todo mundo tem direito de registrar a experiência – e querer controlar o que o outro posta nas redes dele é dar murro em ponta de faca. E não tenho nada contra selfies também, muito pelo contrário, já até escrevi um textão falando sobre elas. A questão dessa exposição, a meu ver, não batia em nenhum desses assuntos apenas. Era uma questão de validação.

“Olhem pra mim, eu vim na exposição!” era o que todos pareciam querer comunicar. As obras eram meros backdrops para fotos. A prova disso eram as filas nas instalações (que, de fato, são lindas) enquanto os textos de biografia e rascunhos de obras estavam às moscas. Na seção dos quadros, havia tanta gente tirando foto de si ou uns dos outros – e não das obras – que o fluxo de apreciação era completamente atrapalhado. Meu interesse na pintura estava atrapalhando a foto alheia e faziam questão de me verbalizar isso. “Tira foto na frente daquele quadro azul, vai combinar com sua blusa” foi uma frase que eu ouvi, de verdade.

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Depois dessa acima, há uma sala incrível com espelhos, luzes e água. O tempo de permanência lá já não está estampado em lugar nenhum, mas é imposto por um segurança que fica na porta GRITANDO pra quem está lá dentro não parar de andar. No meu grupo estava essa menina da foto acima, que a cada metro revezava um clique com a mãe. Parada numa pose, interrompeu o fluxo e o segurança da sala DESLIGOU AS LUZES DA INSTALAÇÃO e mandou o povo acelerar. Já me falaram que não foi bem isso, que fica escuro mesmo quando o ciclo de luzes piscantes acaba. De qualquer forma, se fiquei 15 segundos ali, foi muito. Ou seja, não vi nem um ciclo completo. Não me deram oportunidade de apreciar nada no meu ritmo.

Era muito antagônica a sensação de estar cercado de tanta cor e vida e sendo tratado como em um rebanho de bois indo virar carne moída. Era como estar, às 18h de uma sexta-feira, na estação de metrô Luz, mas com paredes neon decoradas com luzes de natal.

Não sabia se o excesso de fotos era por conta do tempo curto ou se o tempo curto foi imposto pois todos param demais para tirar fotos. É o ovo e a galinha.

Pensava: quem aqui conhecia Yayoi Kusama antes? Tanto faz, é maravilhoso poder descobrir um artista novo já numa exposição dele! Eu sou a favor da popularização da arte, acho que quanto mais acessível melhor, e cada um interage com ela de um jeito diferente, não deve haver protocolos. Mas confesso que, na fila, tentei desenhar algumas variáveis: será que ia ter tanta gente aqui se exposição não fosse de graça? E se não pudesse tirar foto? E se fosse num outro espaço?

É que não estamos numa cidade que tem a igrejinha e o coreto e aí, de vez em quando, instalam um circo na cidade e ele lota toda noite pois é a única coisa que tem pra fazer. O cardápio cultural de São Paulo é muito vasto e tem mil eventos igualmente gratuitos e acessíveis espalhados por aí sem ninguém os visitando. Por isso repito que minha questão é a seguinte: de onde veio tanto interesse nessa mostra da Yayoi Kusama?

Meu palpite: das redes sociais.

Afinal, pra onde você acha que foram todas essas fotos que vemos sendo tiradas?

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Para muitas pessoas, atualmente, fazer algo só por fazer e só para elas mesmas não é suficiente. É preciso divulgar, validar pelos olhos dos outros. Se não registrei, não fiz. Quanto mais gente ver que me diverti, mais diversão eu tive. Cada um dosa à sua maneira, mas de forma geral acho esse movimento uma pena. Tira as pessoas do presente um pouco, e cria uma memória de algo que, na verdade, não existiu.

As vezes parece que a possibilidade de registrar que se fez algo influencia a tomada de decisão entre o fazer e o não fazer: a festa na casa do vizinho não gera check-ins nem tem fotógrafos profissionais registrando, então melhor nem ir.

É o cara que sente como se tivesse lido o livro depois de tirar foto da capa, é quem posta mil fotos da ida à praia direto da areia ao invés de aproveitar o passeio, é a galera que vai pra grade do show mas vê tudo pela tela do celular pois filmar é mais importante, é a menina que sente que já malhou o suficiente hoje depois de tirar foto com roupa de ginástica no espelho da academia. É viver sua vida para os outros.

E é isso.

Uma coisa foi alimentando a outra. Selfies e mais selfies numa exposição plasticamente bonita levaram selfers e mais selfers até ela. No fim, saem ganhando eles com seus lindos cliques e sai ganhando a galeria que teve seu recorde de visitas. Mas perde quem gosta genuinamente do trabalho de Yayoi Kusama e perde quem foi lá querendo, de fato, conhecê-lo.