Eu queria ter sido um gay de 15 anos

Eu morro de amores quando estou na rua e passa por mim um casal gay com 15 anos de idade, de mãos dadas. Com 15 anos eu estava tão confuso, reprimido, tão entorpecido, solitário, com tanto medo e tão deprimido, que eu nem lembro direito da minha vida naquela época. Então eu acho lindo quando eu vejo esses casais: eles já estão esclarecidos o suficiente pra ter uma adolescência mais normal.

Nessa idade, quando você é um gay que não se descobriu 100% ainda, parece que sua vida acontece em um universo paralelo ao das demais pessoas, da sua idade, ao seu redor. Todo mundo estava sorridente, tendo namorinhos, indo em festinhas, fazendo as coisas normais de adolescentes. E eu lá, sozinho em casa, chorando ouvindo música e lendo Flaubert. Pensando que eu era uma aberração, o único no mundo assim, tendo muita dificuldade em controlar minha ansiedade e projetar uma imagem que eu acreditava ser mais correta.

Ter 15 anos e ter uma consciência de si o suficiente para se entender como gay e ter um namoradinho é muito lindo. Economiza muita dor e sofrimento para aquele jovem. Aprendi muito levando socos da vida, mas teria aprendido mais coisas (e coisas mais legais) se meu ponto de partida fosse outro, se eu estivesse em um ambiente que me aceitasse melhor e mais cedo – ou se, pelo menos, tivesse sido impactado por mais imagens positivas da comunidade gay.

Quando a gente fala que representatividade é importante, é por causa disso. Não é para doutrinar ninguém, não é para a marca ou o programa de televisão pagaram de moderninhos, não é para ensinar as crianças a serem gays – isso não se ensina (do mesmo jeito que me ensinaram a ser hetero e desde sempre soube que não era pra mim isso). É para que esses jovens fiquem um pouquinho mais tranquilos com essa coisa dentro deles que causa tanta estranheza e que, por eles acharem que devem esconder, traz também tanta dor. É para ajudar a naturalizar algo que já existe nessa criança: ela mesma.

Acredite em mim: o preconceito e o ódio ao redor nos leva de cara a um caminho de auto-negação, pois queremos ser aquilo que os outros esperam de nós, e muita gente morre nesse processo, por dentro e por fora. Morrem pois matam sua essência, morrem pois se escondem atrás de hobbies e profissões e roupas e comportamentos que na verdade não gostam, morrem pois se matam. E morrem pois são assassinados também.

Quando você tem um segredo que pode te custar sua vida, não existe infância, não existe adolescência, não existe a vida direito. Eu me escondi na minha coleção de discos, mas tem gente que se esconde nas drogas, na criminalidade, na prostituição, e até na homofobia. A lista é infinita.

A próxima vez que você passar por um casal gay de 15 anos de mãos dadas na rua, lembre-se disso tudo que falei aqui. Não é por ser modinha, não é influência da novela e não é, necessariamente, um jovem sexualmente precoce. São apenas pessoas aprendendo, com erros e acertos, sobre o amor, sobre viver em sociedade, sobre ser humano, sobre ser quem elas são de verdade.

E, no meio do caminho, ainda dando a cara a tapa, mostrando pra esse mundo cheio de preconceito e ódio que mesmo que eles ainda não tenham se encontrado por completo, eles já sabem o lugar deles: onde eles quiserem estar.

🙂

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24 comentários em “Eu queria ter sido um gay de 15 anos

  1. Felizmente eu tive a coragem de assumir minha homossexualidade, antes dos meus 15 anos, mesmo sabendo das dificuldades que poderia ou não passar, e morando numa cidade do interior de Pernambuco, na qual ainda o preconceito é bastante forte. Sei os prazeres e desprazeres de ser um jovem gay que vive no Nordeste. Na verdade são mais prazeres que o contrário, porém graças as pessoas incríveis que me cercam e que desde aquela época me apoiam. Na adolescência além da autoaceitação e tive aceitação das pessoas que verdadeiramente importam na minha vida, que são meus familiares e amigos, no início não foi fácil, mas atualmente temos uma relação saudável e de muito amor. Representatividade é importante sim, e foi graças a ela que perdi o medo de ser quem sou e de viver plenamente, livre.

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  2. Esses dias eu vi um casal de 15 anos se beijando na rua, e nem era no epicentro da Savassi nem nada. Plenas 18h ali perto da av. Brasil. Acho que era diferente na nossa época, sabe? Parece que não mas em 10 anos as coisas mudaram muito. Quando eu tinha 15, 16 anos a gente só era “gay” e “bi” dentro da casa de um amigo que tinha os pais mais liberais, ou com identidade falsificada em boate. Hoje eu vejo meu primo que tá no Ensino Médio ter amigos gays e héteros NORMAL, sendo que na minha ~época~ quem era gay era de um grupinho ali do fundão, que até se misturava um pouco, mas com muita cautela pq né. Uma vez compartilharam umas fotos minhas beijando uma menina e essas fotos rodaram o meu colégio inteiro e outros colégios da Zona Sul, foi dureza esse ano, foi esquisito. Também queria ter tido mais espaço pra explorar minha sexualidade de um jeito “normal”. Mas tenho muita esperança nessas gerações mais novas ❤ sorry textão!

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  3. Olhei-me neste texto. Lindo, atual e cumpre um importante papel social. Infelizmente, faço parte daqueles adolescentes de cinco anos atrás que reprimiram sua sexualidade por conta das imposições heteronormativas. Hoje, o conhecimento está mudando a visão social perante ao mundo LGBT. Só falta nós, gays e héteros, nos livrarmos de algumas amarras que fazem questão de dizer como um gay deve se comportar, vestir, etc. Além disso, infelizmente, o racismo e o machismo ainda imperam contra nós. Mas é um trabalho de formiguinha e um dia conseguiremos.

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  4. Seu texto foi maravilhoso e me fez refletir muito sobre meus malditos 15 anos de idade. Aquela época foi horrível mas sinto falta da minha inocência e coisas que passamos, mas só damos o devido valor quando completamos 20 anos ou coisa do tipo.

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  5. Me identifiquei totalmente com esse texto. Passei minha adolescência inteira totalmente isolado, apenas um expectador da vida dos outros… Espero que um dia as coisas melhorem e que a infância e adolescência dos homossexuais não tenha de ser uma experiência tão dolorosa, como acoenteceu comigo…

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  6. Meus olhos estão cheios de lágrimas, infelizmente eu com 22 anos ainda não pude compartilhar minha condição sexual com a minha família, isso é o que mais dói, as pessoas que nos viram desde pequenos não estarem abertos a conversa!

    Esse texto é pura realidade, infelizmente a 7 anos atrás eu não recebi essa estrutura e tudo estava muito reprimido dentro de mim! Hoje graças a Muito esforço eu me conheço e me aceito muito bem ❤️

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  7. Eu comecei a me descobrir na adolescência, mas não sabia ao certo o que eu queria pq havia sidocriado como jhetero e sempre tive o interesse em pessoas do mesmo sexo ate que um dia tive a oportunidade de experimentar beijar outro garoto, desde então minha vida mudou e eu Vi que eu realmente gostava de garotos. Mas não me assumi por medo de rejeição de amigos e familiares escondi ate os 18 quando me abri com amigos e todos me aceitaram. Só fui me assmir pra minha mae e publicamente aos 22 anos recebi muito apoio de pessoas próximas ate minha mae no começo mesmo sendo evangélica me aceitou, mas dps foram vindo aquelas palavras que machucam a alma “se você se casar com outro homem esquece que sou sua mae” aquilo acabou comigo. Mas to aqui firme e forte seguindo em frente, enfrentando preconceitos, insultos e tudo mais.Eu ttenho certeza do que sou e do que quero pra minha vida.

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